Arquivo da tag: Vale do Anhangabaú

Para que reconstruir o Vale do Anhangabaú?

A prefeitura de São Paulo anuncia em agosto de 2015 um projeto novo para o Vale do Anhangabaú. Pelo que se conhece, tudo começou com algumas oficinas de discussão em 2013, que contaram com a orientação do dinamarquês Jan Gehl e o apoio do Banco Itaú, em que foram avaliados os usos do espaço, os percursos e as reclamações dos usuários. Constatou-se que é um lugar com muita passagem e pouca permanência. E foram lançadas visões para a transformação do espaço.

A proposta que será apresentada pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano (SMDU) e pela SP Urbanismo vai bem até a parte em que propõe “fachadas ativas” porque vitrines são mais interessantes para os pedestres que muros e portas fechadas e pede por mais atrações e mais bancos, para que as pessoas possam se sentar e se deixar ficar. Mas depois a proposta desanda, porque prescreve que, para o incremento dos usos, seria também preciso trocar toda pedra portuguesa por outro piso mais liso, eliminar todos os desníveis e criar muitas fontes d´água com jatos que saem do piso e seriam desligados para a realização de eventos no Vale.

Projeto proposto em julho de 2015 pela SMDU da PMSP
Projeto proposto pela SMDU

Por que descartar sem cerimônia o projeto implantado, de autoria de Jorge Wilheim e Rosa Kliass, vencedor de um concurso nacional, que foi projetado e executado com um esmero raro em espaços públicos?

Antes do concurso, nos anos 1980, o vale estava tomado pela avenida e os pedestres só o cruzavam pelo Viaduto do Chá. Depois de alguns atropelamentos, a solução que estava sendo estudada era a construção de novas passarelas sobre o vale. Mas, incomodado com o que isto representaria para a imagem da cidade, o prefeito acatou o concurso de arquitetura. A equipe vencedora propôs rebaixar a avenida e, sobre a laje, implantar um projeto paisagístico arrojado, com piso em pedra portuguesa e granito rosa, em linhas ora sinuosas, ora geométricas, para o uso do pedestre. Rosa Kliass também desenhou canteiros com vegetação, espelhos d´água, esculturas, banheiro público. A proposta ainda incluía creche e um café junto aos chafarizes.

Foram dez anos até a inauguração em 1991. Pelas dimensões da área, fica claro que a obra consumiu vultosos recursos. Felizmente, o resultado foi muito bom, digno de São Paulo. A pedra portuguesa é apropriada para espaços públicos, além de tradicional e elegante. Mas a manutenção de modo geral e a limpeza, ao longo dos anos, foi irregular e muito aquém da necessidade. Os espelhos d´água, por exemplo, estão desligados há muito tempo. Não é razoável trocá-los por outros.

O banheiro público nunca vimos funcionar. Se o espaço hoje cheira a urina, não é a eliminação do banheiro que vai mudar isto. Certamente não há uma solução fácil para os moradores de rua mas imaginar que não existem é o que menos resolve. Assisti-los, possivelmente, passe por pensar questões como: é desejável ou não que as fontes sejam usadas para lavar roupa? Se não, isto pode ser feito em outro lugar?

Os espaços públicos da cidade têm carências imensas. Neste contexto, o descarte completo do projeto do Vale do Anhangabaú não se justifica. É requalificar um espaço já qualificado. Antes de qualquer obra, é razoável que a prefeitura busque aproveitar o projeto existente com intervenções menores, dentro de um novo programa de gestão e animação. E que lhe dê sempre a devida manutenção. 

Cartão Postal. Foto: Roberto Stajano, 1997.
Cartão Postal. Foto: Roberto Stajano, 1997

Texto: Francine Sakata, agosto de 2015.

Anúncios