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Parques de Porto Alegre

O município de Porto Alegre, segundo a Secretaria Municipal do Meio Ambiente e da Sustentabilidade (SMAMS)¹, conta com 8 parques urbanos, 637 praças urbanizadas e 4 unidades de conservação. Até 2017, esta secretaria era responsável pela implantação e manutenção das praças e parques de Porto Alegre. A partir deste ano, a manutenção das praças foi repassada à Secretaria de Obras e dos parques foi mantida com a SMAMS.
No entendimento dos técnicos da secretaria, os espaços públicos das praças e parques são destinados ao lazer, ao esporte, à contemplação e interação social; contribuem para o equilíbrio ambiental das cidades; são estruturadores do tecido urbano; e neles, as edificações devem ser evitadas ou minimizadas.
Para a prefeitura, os parques são áreas verdes com área superior a 100.000m², ainda que haja parques com área menor. São áreas com abrangência urbana, ao contrário das praças que são consideradas de abrangência local, e contam com administração própria – com sede e edificações de apoio. Assim, cada parque tem uma equipe própria de manutenção. Uma característica dos parques de Porto Alegre é que não são cercados, com exceção do Parque Germânia. A questão dos cercamentos dos parques é pauta de discussões na cidade.

Algumas unidades de preservação são áreas controladas e não tem acesso público, como o Parque Natural Municipal Morro do Osso, o Parque Estadual Delta do Jacuí e Reserva Biológica do Lami José Lutzenberger.²

Os espaços livres de uso público no município têm surgido pricipalmente por conta da obrigação legal do empreendedor de destinar áreas públicas por ocasião do parcelamento do solo. O projeto deste espaço deve seguir as diretrizes da SMAMS e tem sido, em geral, executado pelo empreendedor. As áreas doadas ao município são mais compatíveis, pelo porte, com praças do que com parques. Os Termos de Compensação Ambiental não foram utilizados para construir ou equipar parques inteiros. Em Porto Alegre, até 2018, as praças não perderam protagonismo para os parques.

O trecho da cidade que tem recebido mais atenção e investimentos é a Orla do Rio (ou Lago) Guaíba, desde a área central até o Museu Yberê Camargo, ao sul. Há uma sequência de praças que foram revitalizadas pela prefeitura, algumas incluídas no pacote de obras para a Copa do Mundo de 2014. Será inaugurado, em 2018, um calçadão em torno da Usina do Gasômetro, projetado pela equipe do arquiteto Jaime Lerner, com terminal turístico para barcos de passeio, restaurante, bares, playground, academias ao ar livre, quadras esportivas, caminhos com arquibancadas para contemplação do pôr-do-sol, decks que se projetam sobre a água, ciclovia, jardins aquáticos, postes de iluminação altos e vistosos. Este trecho já possuía intensa apropriação para o passeio e a contemplação mas não possuía um tratamento sofisticado.

FORMA URBANA E SITEMA DE ESPAÇOS LIVRES

Parque Urbano da Orla do Guaíba, 1a fase, com 1.320m de extensão, entre o Centro Cultural Usina do Gasômetro e a Rótula das Cuias (2018), projeto do urbanista Jaime Lerner. Aos domingos, parte da Avenida Edvaldo Pereira Paiva (Beira-Rio) fica bloqueada para automóveis. Foto: Fábio Mariz Gonçalves, 2018. 

Junto à orla também está o Parque Marinha do Brasil e o Parque Maurício Sirotski, este último com apropriação eventual, em eventos itinerantes. O restante da Orla do Guaíba no município segue com vários graus de tratamento e de apropriação: há trechos com acesso público; trechos com o acesso pelos clubes náuticos; e trechos sem acesso público. Em frente ao Museu Yberê Camargo, uma faixa estreita tem sido intensamente utilizada (2018) para a contemplação do pôr-do-sol. Mais ao sul, no bairro Guarujá, há uma praia de areia e o calçadão de Ipanema, também com muito uso ainda que não muito largo. A praia de Ipanema até os anos 1960 era balneável, situação que se modificou com a expansão da cidade.

Entre os novos parques, o Parque Gabriel Knijnik (2004) era o sítio do engenheiro que dá nome ao parque, doador da área para que fosse transformada em parque municipal. O acesso é difícil. Possui pomar, uma área de banhado e uma grande área de preservação. Foram construídos sanitários, coreto, playground, churrasqueiras, duas quadras de futebol, cancha de bocha, passeios e estacionamento. Do alto do mirante, atualmente fechado, era possível avistar a área rural e a área urbana de Porto Alegre.

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Parque Gabriel Knijnik (2004), sítio particular doado em testamento à prefeitura. Fotos: Sérgio Louruz_PMPA, 2010.

O Parque Germânia (2006) foi planejado e construído por uma construtora e está circundado por empreendimentos imobiliários. Ao servir como espaço de lazer para os moradores, valoriza o entorno. A ideia era justamente esta, qualificar este setor da cidade para a moradia das camadas de alta renda que resistiam em mudar das áreas tradicionais da elite na cidade, como daquela em torno do Parque Moinhos de Vento. É um parque completo, com lago, gramados, administração, quadras de tênis, vôlei, basquete e futebol de salão, cancha de bocha, playgrounds, aparelhos de ginástica, caminhos para corrida ou caminhada, jardins para descanso e contemplação da natureza e uma área de preservação. Foi anunciado por seus idealizadores como sendo o primeiro parque cercado da cidade, o que não é necessariamente uma qualidade.
Em um bairro de população de rendas mais baixas, o Parque Chico Mendes e a Praça México, quase vizinhos, são desafios para a gestão municipal. O primeiro tem problemas com invasões, tráfico e insegurança e a segunda foi bem apropriada e recebida pela população.

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Parque Germânia (2016), com 150.000m². Segundo a construtora Goldsztein S/A, que concebeu o bairro Jardim Europa, o parque foi construído por ela e doado a Porto Alegre. Fotos: Silvio Macedo, 2010.

Os parquesTabela de Parques - Porto Alegre

Parques na malha urbana - Porto Alegre

Mapa de parques e rendas - Porto Alegre

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Fontes:
1 A Oficina Quapá SEL de Porto Alegre contou com palestra e participação de Marcos B. Profes e Sergio Tomasini, da SMAMS. SAKATA, Francine; DONOSO, Veronica; REIS, Juliana. Relatório Oficina Quapá-SEL Porto Alegre – 4 a 6 de abril de 2018, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. FAUUSP, 2018.
2 Secretaria do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Smams) do governo do Estado do Rio Grande do Sul: Disponível em: http://www.sema.rs.gov.br/unidades-de-conservacao-2016-10
Texto: Francine Sakata, 2018.
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Por que fazer o térreo livre?

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Dois prédios muito parecidos na sua natureza e na sua localização mas muito diferentes em sua relação com a cidade. Ambos de salas comerciais em esquinas da Rua Cubatão, uma rua muito movimentada, próxima da Paulista, cheia de gente andando para um lado e para o outro. Um prédio está cercado e o outro não tem fechamento nenhum.

O prédio na esquina com a Afonso de Freitas abriga o Ministério Público do Trabalho. O térreo recebeu um gradil de vidro (que é muito melhor que um muro), jardins e espelho d´água. O cercamento foi feito quase todo junto do alinhamento da calçada.  Tem também uma “porte-cochère”, aquele acesso de carros em que a pessoa pula do carro para o interior do prédio sem precisar tocar o chão (mas duvido que usem). Para dentro do gradil, só o segurança e os eventuais visitantes. A maioria dos edifícios residenciais e comerciais segue este padrão.

Na esquina com a rua Sampaio Viana, o prédio projetado por Jonas Birger tem inquilinos variados e o térreo é aberto. O projeto paisagístico de Isabel Duprat é sofisticado: tem espelho d´água, muro de pedra, jardim iluminado, piso de granito apicoado. Junto à entrada do edifício, há uma cobertura que acolhe o visitante e também abriga mesas e cadeiras, que podem ser usadas para descanso, espera e lanchinho. Tudo aberto. Ali já foi montada uma banca de livros infantis. Se o desejo do térreo aberto partiu do arquiteto, da paisagista ou do cliente ainda não sei, mas é mérito de todos que a ideia tenha ido a diante.

A primeira vez que passei por ali essa elegância toda me chamou a atenção.  Mas quem compara um espaço com o outro todos os dias é o arquiteto Carlos Amorim Lavieri​, que mora por ali, que frequenta a Casa das Rosas, e cujo cotidiano seria mais interessante se os espaços urbanos tiverem mais qualidade. O dele e o de todo mundo. (Também se as esfihas vendidas por ali mantiverem a receita).  A cidade dos sonhos está nos detalhes.

Texto:  Francine Sakata, arquiteta paisagista, maio 2015.

Ilha das Caieiras: modelo de participação, projeto e usos

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Em Vitória, a Ilha das Caieiras é um exemplo raro de requalificação social e paisagística. Os espaços livres públicos ali existentes foram tratados e permitem que usos tradicionais dos pescadores e das desfiadeiras de siri convivam com usos cotidianos de lazer da população e com o turismo gastronômico. Tudo emoldurado por uma linda baía onde o sol se põe espetacularmente.

A Ilha das Caieiras é um dos bairros mais antigos de Vitória. Os rios Santa Maria e Bubu desembocavam no manguezal em frente à Ilha, que era um ponto de parada do transporte do café produzido na região Serrana. As famílias ali instaladas desenvolveram a pesca e o desfio de siri. Mas, como fonte de renda, o desfio do siri começou mesmo na década de 1970. Ao longo dos anos, foram sendo abertos restaurantes e a comunidade começou a receber turistas.

Na busca por melhorias, a associação dos pescadores conseguiu formar a peixaria comunitária e um espaço para cozinhar o siri, com um tanque e um queimador. Assim, o pescador pode limpar o produto no momento em que retorna. O pólo gastronômico ali configurado conta com 14 restaurantes que servem as tradicionais moquecas e tortas capixabas, além das barraquinhas, e um deck de madeira para as mesas e seus guarda-sóis, com vista privilegiada da baía. O deck se estende por 550m até a Praça Dom José Batista, que conta com quadra poliesportiva e de areia, playground e academia popular. Por conta desse piso de madeira, esta beira d´água tem unidade e é lida como um conjunto só.

Um trecho desse deck também cumpriu o papel de arrematar fisicamente as construções precárias debruçadas sobre o mangue e conteve a expansão desordenada do conjunto construído. Com a renda que agora aflui, a população faz melhorias e cobre pisos e paredes com cerâmicas estampadas. Nos finais de semana, o número de visitantes é numeroso mas, nos dias de semana, a rotina é pacata e as crianças brincam no parquinho, na água, nos barcos, com as mães e tias em volta.

De uma periferia distante e pobre, que a população de Vitória não visitaria, a Ilha das Caieiras (que, por conta de um aterro, é de fato uma península) ganhou interesse e visibilidade. Tornou-se um destino turístico – simples, autêntico e acolhedor. Neste processo ganharam todos: pescadores, desfiadeiras, famílias, capixabas e forasteiros. Torcemos para que conserve toda sua qualidade.

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Texto e fotos: Francine Sakata