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Infraestrutura Verde foi um sopro de novidade para o Paisagismo

Jardins-de-chuva bem desenhados nas calçadas de Seattle nas fotos do Prof. Nate Cormier.
Jardins-de-chuva bem desenhados nas calçadas de Seattle nas fotos do Prof. Nate Cormier.

O aluno que chegou à faculdade após os anos 2000 foi incentivado, ao longo de toda vida escolar, a “proteger a natureza”. Mas essa doutrinação foi feita de forma parcial porque faltou discussão. A informação que o cidadão comum recebe sobre danos ambientais é comumente incorreta, omissa ou exagerada e as possibilidades de ação limitaram-se por muito tempo ao plantio de árvores e à reciclagem de lixo. Há poucos anos também entrou em pauta a redução no consumo, mas o tema prejudica as vendas dos patrocinadores e, dependendo do canal, a abordagem é feita com suavidade. As mesmas empresas que usam os termos sustentabilidade e responsabilidade ambiental são aquelas que dependem de crescentes níveis de consumo.

Os indivíduos tendem à paralisia porque, se por um lado são bombardeados por mensagens de “salve o planeta”, por outro são impelidos à produção e ao desperdício. Os estudantes se tornaram, neste contexto, um exército de jovens bem intencionados que não sabem como colaborar e que acabam, por falta de novas instruções, perpetuando as respostas técnicas de praxe, muitas delas danosas ao meio ambiente. A Arquitetura Paisagística, por tratar das áreas externas, como praças, parques e beiras d´água, que são representações da natureza no meio urbano, ganha projeção entre os alunos e chega a ser predileta daqueles mais sensíveis às questões ambientais.

A compreensão da natureza e seus processos sempre fez parte da teoria da Arquitetura Paisagística. O norte-americano Frederick Law Olmsted projetou entre 1878 e 1896 o Emerald Necklace (o “Colar de Esmeraldas”), um conjunto de parques em Boston ao longo de um curso d´água que protege este recurso, tem um papel para a drenagem urbana e ainda serve ao lazer das pessoas. No Brasil, Burle Marx sempre promoveu a vegetação nativa e a preservação dos ecossistemas e da biodiversidade. Rosa Kliass e Miranda Magnoli há anos falam da importância dos parques lineares para proteção dos córregos e para o sistema de espaços livres urbanos. Esta consciência é parte da disciplina.

O sopro de novidade aconteceu em 2005, em um curso de capacitação de Arquitetura Paisagística ministrado na FAUUSP, no qual Paulo Pellegrino e Rosa Kliass reuniram profissionais estrangeiros e brasileiros e montaram um programa que apresentou e disseminou novas práticas projetuais e o próprio termo “infraestrutura verde”. Ali uma nova linha de pesquisa foi também aberta. Eu não estava lá mas estive na oficina “Planejamento da Paisagem – Estudo para uma Infra-Estrutura Verde”, no 8º Enepea, realizado também na FAUUSP em 2006, em que o Prof. Nathaniel Cormier, de Seattle, EUA, propôs a aplicação das técnicas de infraestrutura verde para o prédio onde estávamos. São ações para colher a água de chuva, filtrá-la, se possível, com absorção pela terra ou reutilizá-la para outros fins e, com isto, retardar o seu retorno ao sistema tradicional de drenagem urbana e prevenir enchentes. Cada técnica estava bem definida por um nome como jardim-de-chuva, canteiro pluvial, biovaleta, lagoa de retenção, cisterna e teto verde. O exercício foi empolgante porque além de ser relativamente fácil aplicar estas técnicas, é preciso usar a criatividade para desenhar isto de uma forma interessante e imaginar como os usuários do edifício ou da cidade vão perceber e colaborar com as propostas.

O canteiro pluvial e a biovaleta. Desenhos do texto de CORMIER e PELEGRINO.
O canteiro pluvial e a biovaleta. Desenhos do texto de CORMIER e PELEGRINO.

A aula do professor Nate foi reproduzida pelo país. Ele e Pellegrino geraram um texto (nas referências abaixo) que fixou o conceito. Na disciplina Introdução ao Paisagismo do curso de Arquitetura e Urbanismo da FIAM-FAAM, nosso grupo de professores – Paulo Gonçalves, Fábio Namiki, Fabíola Bernardes entre outros – passou a aplicar um exercício prático similar ao da oficina. A empolgação dos alunos com esta aula e este exercício não é a mesma em todas as turmas mas costuma ser maior que o usual. A atenção deles é despertada, os alunos participam ativamente, absorvem com grande facilidade o conteúdo e o retomam, por conta própria, ao longo do curso.

No exercício de projeto que fecha o semestre, por conta da complexidade e das inúmeras questões que o aluno precisa enfrentar, a aplicação das tipologias de infraestrutura verde não é exigida mas os próprios alunos as propõem. Este sucesso da infraestrutura verde eu credito ao fato daquela doutrinação “salve o planeta” nunca ter tido um sentido prático e também porque os cursos de arquitetura e urbanismo, salvo as disciplinas de conforto ambiental e outras poucas, não incorporaram ainda, com vontade, práticas construtivas que visam na redução de impactos ambientais.

Texto: Francine Sakata

Referências:

CORMIER, Nathaniel S.; PELLEGRINO, P. R. M. Infra-estrutura verde: uma estratégia paisagística para a água urbana. Paisagem e Ambiente, v. 25, p. 127-142, 2008.

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