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Vira praça, vira parque

Texto: Matheus Casimiro

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Nos últimos três anos, na cidade de São Paulo, houve um aumento de solicitações para o enquadramento de praças públicas como parques públicos. Essas demandas foram requeridas pelas mais diversas origens, de entidades civis à Câmara Municipal. Houve casos de áreas verdes emblemáticas, como a Praça da Sé ou a Roosevelt, que não foram adiante, e casos que foram levados à cabo, como o novo Parque Tatuapé e a Praça do Pôr do Sol.

A primeira experiência tida como bem sucedida foi a praça do antigo Lions Clube Penha, com 19.128 m², que se tornou o “Parque Tatuapé” pelo Decreto de Nº 55.860, de 20 de janeiro de 2015. Essa área se localiza próxima ao parque Piqueri, na subprefeitura da Mooca, com topografia relativamente plana e esparsos exemplares arbóreos e arbustivos. Esse local estava praticamente abandonado com pouca apropriação pública.

 

Parque Tatuapé. Fotos: Arthur Cabral e Fabíola Trindade, 2013/2014.

O segundo exemplo de praça convertida em parque é a praça Coronel Custódio Fernandes Pinheiro, mais conhecida como a Praça do Por do Sol, transformada legalmente em uma área verde especial denominada “Parque do Pôr do Sol” (Decreto de Nº 56.333, de 13 de agosto de 2015). Localizada no Alto de Pinheiros, sua metragem é de 28. 358 m², e tem como características principais o relevo acentuado, com grandes desníveis entre ruas que o confrontam; a interação entre seu espaço e a rua sem qualquer cercamento em seu perímetro; a ausência de bosques consolidados, apenas árvores isoladas, gramados e poucos maciços arbustivos. Ao contrário do “Parque Tatuapé”, sua apropriação coletiva é intensa com dias de lotação.

Parque do Pôr do Sol. Fotos: Matheus Casimiro, 22/09/2014.

Ambos os casos apresentam conformação urbana semelhante, pois são áreas de pequena dimensão, sem presença de elementos naturais de relevância e com equipamentos já com uso público estabelecido. A questão que se coloca é: o que motivou a demanda de transformação dessas áreas em parques públicos?

As praças e os parques são diferentes categorias de áreas dentro do sistema de espaços livres da cidade. Apesar de serem áreas públicas que apresentam algumas semelhanças entre si, têm discrepantes conceituações, feições e destinações. Não são diferentes apenas por sua origem e história mas por oferecerem distintas formas de apropriação. O contraste entre elas vai além de características como dimensão e a presença ou não de cercamento. São morfologias urbanas com atributos distintos, para não dizer antagônicos. O entendimento dessas diferenças e semelhanças parece ser um dos primeiros estágios necessários para elucidar a questão.

As praças são espaços integrados à circulação do espaço em que se inserem. Inicialmente criadas para dar suporte a atividades culturais, de comércio, e a discursos políticos, hoje são áreas livres para diferentes usos de lazer e como extensão das ruas e calçadas. Podem ser áreas arborizadas ou secas, mas não necessariamente precisam compor uma função ambiental para o município, embora isto seja desejável. O parque, por sua vez, é a evolução do jardim na cidade contemporânea, sendo o artefato da natureza no ambiente citadino. Por esse motivo, tem predominância de recursos naturais, e propicia tanto o lazer ativo – como esportes e ciclovias – como atividades passivas – estares contemplativos e mirantes. Na contemporaneidade, parques são compostos a partir de uma função ecológica, tornado-se prioritária sua contribuição com a drenagem urbana (piso permeável), preservação da rede hídrica, manutenção do micro-clima e diminuição das ilhas de calor (presença de árvores e espécies arbustivas).

A definição de parque ou praça aponta para distintas formas de planejar, implantar e gerir cada área. A confusão conceitual pode atrapalhar seu provimento e manutenção, podendo gerar espaços públicos mais desfuncionais, desarticulados e degradados na cidade. Pela imprecisão e falta de clareza na definição de cada um desses espaços há demandas e solicitações de criação de parques e parques, por diferentes origens, sem critérios específicos que norteiem as motivações de criação de cada um deles.

É necessário ponderar essas diferenças para subsidiar melhores condições quanto a qualidade de uso público. A demanda para a transformação dessas áreas provavelmente teve origem na expectativa de melhorias relacionadas a sua gestão, pois, entre praças e parques municipais há formas de gestão distintas.

As praças de São Paulo são áreas livres municipais de uso comum sob responsabilidade, em geral, embora não todas o sejam, de gestão e manutenção das Subprefeituras. Ao contrário dos parques públicos urbanos, as praças não possuem horário de funcionamento e, portanto, não possuem nenhum tipo de fechamento, cercamento ou cerceamento ao acesso público. As praças de São Paulo se caracterizam como espaços com programa de usos, em geral, mais abertos que o dos parques municipais. São áreas voltadas ao encontro e à vivência pública em qualquer horário do dia ou da noite, de acesso irrestrito. Enquanto espaços livres e, portanto, não construídos, a grande maioria das praças não possui sistema de instalações hidráulicas, sanitários ou demais edificações.

Por outro lado, os parques municipais paulistanos estão sob responsabilidade da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente. Administrados por um Conselho Gestor com poder deliberativo, os parques possuem horários de funcionamento e regulamentos de uso definidos em função do programa de atividades previstas. Com exceção dos parques lineares (embora alguns também o sejam), os parques são cercados e possuem horários para abertura e para fechamento. Os parques municipais de São Paulo possuem contratos para segurança, em geral realizada por equipes terceirizadas, e são dotados de equipamentos como banheiros e bebedouros.

As diferenças quanto a manutenção e segurança desses espaços podem ser as principais motivadoras para a conversão de praças e parques. Os solicitantes entenderem que, com previsão legal de parques, estas áreas estariam municiadas de melhores condições de gestão. Muitos representantes das comunidades são da opinião que os parques municipais têm gestão mais eficiente que as praças por terem limitação de acesso, contratos de manejo e segurança exclusivos e a contratação um administrador com criação de um respectivo conselho gestor.

Com isso, faz-se necessário a retomada da discussão acerca da gestão das praças. Recentemente foi instaurada a Lei de Nº 16.212, de 10 de junho de 2015, que “Dispõe sobre a gestão participativa das praças do município de São Paulo“. Com ela, abre-se a possibilidade de haver uma inflexão sobre a mudança da política de criação e gestão dos espaços verdes, criando uma coerência quanto às características e aos usos condizentes com cada um dos espaços do Sistema de Áreas Verdes da cidade. Esse é um bom início para a discussão de uma carente reflexão acerca das praças públicas municipais.


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Referências bibliográficas:

CHADWICK, George F. The park and the town . Michigan, ,Architectural Press, 1966.

BARTALINI, Vladimir.  Parques Públicos Municipais de São Paulo – A ação da municipalidade no provimento de áreas verdes de recreação. Tese de doutorado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. São Paulo, 1999.

KLIASS, Rosa G. A. A evolução dos Parques Urbanos na Cidade de São Paulo. Dissertação de Mestrado. Orientador: Lucio Grinover. São Paulo: FAUUSP, 1989.

SALDANHA, Nelson. O Jardim e a Praça . São Paulo, Edusp, 1986.

SEGAWA, Hugo. Ao amor do Público: Jardins no Brasil. São Paulo, Studio Nobel / FAPESP, 1996.

SUN, Alex. Projeto da Praça: Convívio e Exclusão no Espaço Público. 2ª Edição, Editora Senac, São Paulo, 2011.

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Matheus Casimiro

Matheus Casimiro é arquiteto e urbanista e foi diretor de projetos no Depave. Entregou em 2017, sua dissertação de mestrado sobre parques em São Paulo.

 

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Jovens adultos consumindo cidade

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O espaço público tem sido utilizado de muitos novos jeitos que não aconteciam anos atrás. No Carnaval paulistano, blocos levaram milhares de “foliões” às ruas. “Coletivos” se organizam pelas redes sociais e ocupam praças com estruturas criativas. Aos domingos, parques e avenidas fechadas para os automóveis são lugar de corridas, rolés de bike e showzinhos de música. Há cadeiras nas calçadas por todos os bairros. Até postos de gasolina recebem boêmios sob suas marquises bem iluminadas.

Por que isso? Uma explicação é a correlação entre essas demandas urbanas e a pirâmide populacional. Nos anos 1980, nasceu muita gente no Brasil, como nunca antes (nem depois). Para atender essa faixa da pirâmide etária, nos anos 1990, foram necessários equipamentos públicos para as crianças e adolescentes, como escolas e quadras esportivas. Nos anos 2010, os nascidos em 1980 estão com 30 e poucos anos. Eles agora são jovens adultos, que compram apartamentos de um dormitório no centro da cidade e encontram os amigos nos bares e nas ciclovias.

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Essa correlação foi apontada por Kazuo Nakano, mestre pela FAUUSP e doutor em Demografia pela UNICAMP, durante o 1o. Ciclo de Debates Quapá-SEL realizado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP em 2015, organizado pelo Prof. João Meyer. Nakano mapeou o salto no número de crescimento dos domicílios unipessoais (em que mora apenas uma pessoa). Ele aponta diferenças de perfil nas pessoas que moram sozinhas no centro expandido e na periferia: no centro cresceu o número de homens jovens em apartamentos pequenos e, na periferia, predominam mulheres mais velhas que ficaram sós nas casas da família.

E, se estamos vendo a cidade tomada por adultos animados, já não encontramos mais, nas calçadas e ruas das periferias, a criançada gritando. De novo, a pirâmide explica.

Texto: Francine Sakata

Fotos: Parque Cândido Portinari (Francine Sakata, 2015) e Pit-dog em Goiânia (Diogo Sakai, 2015).

Recomendamos:

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2011/04/29/populacao-adulta-foi-a-que-mais-cresceu-na-ultima-decada.htm

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2011/04/29/sao-paulo-concentra-maiores-densidades-demograficas-do-pais-menores-estao-no-amazonas.htm

Qual será o futuro da Praça Victor Civita?

A linda praça em São Paulo que era também uma peça de propaganda da Editora Abril, teve sua gestão e manutenção entregues à Subprefeitura de Pinheiros no primeiro dia deste ano. É de se esperar que a agenda de peças teatrais, contação de histórias e pequenos shows seja reduzida (a zero). As visitas de escolas em que se abordava a questão do lixo também devem sofrer. E o que será dos sofisticados decks de madeira?

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Projeto das arquitetas Adriana Levisky e Anna Julia Dietzsch inaugurado em 2008, a Praça Victor Civita presenteou São Paulo com decks suspensos de madeira que, ao invés de terminarem retos, como seria o convencional, enrolam-se em curvas que se transformam em bancos, guarda-corpos e coberturas. Sob essas coberturas há estação de ginástica, palco e platéia. Tudo elevado do solo, que estava contaminado porque ali funcionou um incinerador de lixo.

O visitante nunca tem contato com o solo. No sopé das árvores existentes foram feitos canteiros com  tampas de grade. Os jardins novos e as hortas foram plantados sobre uma base de ardósia isolada do antigo chão. E o passeio é mesmo sobre o deck de madeira. O edifício existente virou uma espécie de museu discreto da Editora Abril e era mais uma atração para descanso, lazer e banheiros limpos.

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No link abaixo, Edison Veiga, do Estadão, anuncia o fim da parceria que viabilizou a praça, firmada em 2007 entre o Grupo Abril, que está ainda instalado no terreno ao lado, e a Prefeitura de São Paulo. O site da associação informa: “Embora todas as atividades oferecidas venham de forma graciosa, manter uma estrutura com tantas particularidades exige tratamento diferenciado, o que custa alguns milhares de reais por mês. Seria de se estranhar se a crise que o país enfrenta não nos atingisse. Perdermos empresas parceiras mantenedoras e outras não aderiram ao projeto.” O valor gasto na manutenção não foi informado com precisão.

O grande problema, a meu ver, é que a praça é de difícil acesso, o que era compensado pela gestão privada, que montava essa agenda de atividades e cuidava da estrutura física com um zelo que não é comum à gestão pública de espaços livres. Quando não recebia nenhuma atividade, o local era pouco frequentado. A praça também não é cercada por ruas, ela dá frente para uma única rua local (como um lote), com quase nenhuma passagem de pedestres. A passagem de pessoas ajuda a inibir violência e vandalismo. Sem o mesmo uso e sem os “padrinhos” que lhe faziam uma manutenção, o risco de degradação é iminente.

O projeto de praça que lá está implantado não é o mais adequado à estrutura de manutenção do poder público mas é um primor arquitetônico-paisagístico. A transferência de uma repartição pública para o edifício seria capaz garantir um maior uso público? Será que a sociedade terá interesse e recursos para mantê-lo? A chance de sobrevida parece residir numa nova adoção.

Texto: Francine Sakata. Fotos: Bruna Santana.

Referências:

http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/edison-veiga/abril-encerra-parceria-na-praca-victor-civita/

http://pracavictorcivita.org.br/2015/12/21/associacao-amigos-da-praca-victor-civita-encerra-um-ciclo/

http://www.archdaily.com.br/br/01-10294/praca-victor-civita-levisky-arquitetos-e-anna-julia-dietzsch

 

A via expressa que quer ser linha verde

O resultado da intervenção paisagística para a avenida que corta Curitiba – a BR 116 em Curitiba – é acima da média nacional. Ainda assim, está longe de ter tornado aquele espaço público agradável. Que tipo de qualificações as vias expressas no meio das cidades merecem?

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Imagens do site da prefeitura.

A BR116 corta Curitiba e atravessa uma série de bairros de renda média e média-baixa. De certa forma, ela se opõe ao setor mais rico, a norte e noroeste e, ao longo dos anos, recebeu várias propostas de requalificação, todas com o objetivo de transformar a rodovia em uma via urbana, integrando-a à cidade. Buscava-se também ampliar a integração física entre os dois lados da rodovia.

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Projeto BR-Cidade - 1996Sistema de Transporte de Alta Capacidade (STAC) - 1999

Os Projetos BR-Vida (1993), BR-Cidade (1996) e Sistema de Transporte de Alta Capacidade (1999).

O projeto mais recente de requalificação da BR 116, e que foi implantado, envolveu uma operação urbana consorciada.  Operação Urbana Consorciada é um instrumento legal previsto no Estatuto das Cidades e no Plano Diretor de Curitiba de 2004 que prevê a venda, pela prefeitura, de um direito adicional de construir. Este direito é alienado em Certificados de Potencial Adicional de Construção, também chamados cepacs. Os recursos financeiros oriundos de sua venda o município pode dispor para “melhorias urbanísticas estruturais, sociais e a valorização ambiental”. É uma forma de capturar recursos privados para obras públicas.

As cepacs fizeram fama na Operação Urbana Faria Lima, em São Paulo, nos anos 1990. Esta operação urbana foi um grande sucesso para dinamizar o mercado imobiliário. Os bairros paulistanos da Vila Olímpia e do Itaim ganharam edifícios corporativos e residenciais moderníssimos sobre suas ruas estreitas e calçadas modestas.  Não é exagero dizer que são arranha-céus envidraçados sobre um arruamento de favela. No quesito desenho urbano, o que se tem hoje é péssimo.

Os recursos obtidos nesta negociação, a prefeitura investiu no prolongamento da avenida Faria Lima, em dois túneis no cruzamento desta com outras avenidas e, creio, na infraestrutura dessa região. Não havia espaços públicos qualificados para o lazer e para fruição senão os canteiros centrais da avenida e uma ciclovia que, na ocasião, não se conectava a nada. Em 2008, numa outra parceria com a iniciativa privada, foi implantado um parque público ali, o Parque do Povo, em terrenos envolvidos em um imbróglio jurídico que perdura em 2015.

A operação urbana com leilão de cepacs virou o sonho das municipalidades, que tem grande parte de suas verbas comprometidas com gastos fixos e limitada capacidade de investimento. E o modelo da Faria Lima foi adotado na Operação Urbana Água Espraiada, também em São Paulo, no Porto Maravilha, no Rio de Janeiro (que inicialmente previa apenas edifícios corporativos e depois incluiu os residenciais) e em outras, inclusive a operação consorciada de Curitiba, que recebeu o sugestivo nome Linha Verde.

Projeto Linha Verde – 2003

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Projeto para a Linha Verde

Em 2015, mesmo paisagisticamente tratada, a Linha Verde remete à Marginal Tietê ou ao início da Rodovia Raposo Tavares, em São Paulo, e a muitas outras semelhantes pelas cidades brasileiras, com seus grandes galpões que abrigam um comércio que gosta de espaço: concessionárias, lojas de móveis, de materiais de construção, grandes cadeias varejistas – Decathlon, Tok&Stok, C&C.

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A prefeitura informou que, dos 99 milhões de reais de cepacs leiloadas, arrecadou 34,4. A impressão que se tem é que o adicional construtivo não seja cobiçado ali porque há muitos lotes grandes e, mesmo sem o adicional, os empreendimentos se viabilizam e ainda há bastante potencial a construir em outros bairros da cidade. Os desenhos do Instituto de Planejamento de Curitiba mostram edifícios sugerem edifícios residenciais e comerciais. É um horizonte mais plausível que instituições financeiras e multinacionais.

Mas ela é acima da média nacional porque recebeu, no centro, a via exclusiva do transporte público. Para os pedestres, o ambiente não é acolhedor e as distâncias são longas mas a existência das linhas do BRT permitem que seja possível chegar até lá de forma digna e que haja campus universitários e conjuntos habitacionais ao longo da via. Os pedestres também existem na Marginal Tietê e na Raposo Tavares paulistana, mas finge-se que são aventureiros clandestinos.

Em meio aos canteiros da BR116, foi também implantada uma ciclovia. Há quem reclame que o traçado é sinuoso e que isto alonga um trajeto que o ciclista faz para se deslocar de um ponto a outro, não necessariamente por passeio. Mas a ciclovia está lá. Resta acompanhar como a cidade se desenvolve ao longo da infraestrutura colocada.

Texto: Francine Sakata

Referências:

http://www.curitiba.pr.gov.br/conteudo/cepac-operacao-urbana-consorciada-linha-verde/576

Apresentação da Prefeitura de Curitiba na Oficina Quapá-SEL, na UFPR, organizada pelo Prof. Alessandro Filla Rosanelli, em junho de 2015 (imagens não creditadas).

Parque Sabesp Móoca: o antigo e o novo

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O terreno do Parque Sabesp Móoca Radialista Fiori Gigliotti continha edifícios e árvores antigas. Uma caixa d´água é bonita em art-deco. (A do Parque Sabesp Butantã, é moderna, em concreto. Ambas receberam iluminação noturna azul). O novo projeto acrescentou elementos contemporâneos – em especial uma rampa e um pergolado metálicos, pintados de vermelho – e renovou todo o conjunto.

Feito pelo escritório Levisky Arquitetos Estratégia Urbana com a parceria de Fany Galender (paisagismo), o novo espaço, inaugurado em 13/09/2014, recebe caminhantes, famílias com crianças, pessoas a passeio. O gramado permite múltiplos usos inclusive treinos esportivos. De acordo com a Sabesp, foram investidos R$10,5 milhões. A área tem 37.867 m².

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Endereço: Avenida Paes de Barros, 2107, Alto da Mooca

Link para o mapa:

https://www.google.com.br/maps/place/23%C2%B034’06.9%22S+46%C2%B035’14.2%22W/@-23.5685829,-46.5872778,15z/data=!3m1!4b1!4m2!3m1!1s0x0:0x0

Texto e fotos: Francine Sakata

Referências:

http://www.galeriadaarquitetura.com.br/projeto/levisky-arquitetos-estrategia-urbana_/parque-sabesp-mooca/1686

Associação dos Amigos do Parque Sabesp Mooca no Facebook (www.facebook.com/parquesabespmooca)

http://www.areasverdesdascidades.com.br/2014/10/parque-sabesp-mooca-radialista-fiori.html

Parque Sabesp Butantã: propaganda do bem

É um parque muito pequeno (10.000m²) em um terreno muito íngreme, mas o resultado é excelente. A Sabesp implantou em conjunto com outros dois em São Paulo, um na Móoca e outro em Cangaíba. As áreas já pertenciam à empresa e os parques funcionam como uma ação propaganda, espelhando uma preocupação com o público. Nesta ação, todas as partes saíram ganhando.

Na parte mais baixa, há uma entrada, com uma pracinha. Para vencer o desnível foi criada uma rampa que funciona também como circuito de caminhada e mirante. Há ainda a opção de subir por uma escada de degraus charmosos. Na parte mais alta, três decks metálicos vermelhos são os mirantes oficiais para a paisagem.

Três grandes reservatórios d´água, que armazenam 15 milhões de litros de água e atendem 18 bairros, são marcos do bairro. O mais alto deles está sendo iluminado à noite com uma luz azul-espacial. Os reservatórios mais baixos foram embalados com mensagens do gênero “cuide bem da água”. Esses pôsteres, do tamanho dos reservatórios, ficaram grande demais para um parque público, que seria, idealmente, um local de descanso desse tipo de peças.

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O projeto e a obra são mais sofisticados que o padrão usual dos parques da prefeitura ou mesmo do estado.  Trata-se de um parque público de um ente meio-público-meio-privado, que é o caso da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), uma empresa mista de capital aberto que tem o governo do Estado de São Paulo como principal acionista (50,3%). Segundo a empresa, as obras, que iniciaram em março de 2014, contaram com investimentos de R$ 6 milhões e geraram 260 empregos diretos e indiretos.

O projeto foi desenvolvido pelo escritório Levisky Arquitetos com a colaboração de Fany Galender (paisagismo). A população do entorno, de classe média predominantemente (bairros Vila Gomes, Jardim Bonfiglioli e Rio Pequeno) parece satisfeita. Eles podem desfrutar também de uma sala para atividades e um pequeno playground. Vamos torcer que estes parques tenham vida longa e que as empresas todas enxerguem as cidades onde atuam com uma visão mais generosa e ampla.

Endereço: Rua Coronel Ferreira Leal, 305.

Link para o mapa:

https://www.google.com.br/maps/place/R.+Cel.+Ferreira+Leal,+305+-+Vila+Gomes,+S%C3%A3o+Paulo+-+SP,+05589-090/@-23.5765353,-46.7372879,17z/data=!4m7!1m4!3m3!1s0x94ce56652743431f:0x3c627c014ae016d3!2sR.+Cel.+Ferreira+Leal,+305+-+Vila+Gomes,+S%C3%A3o+Paulo+-+SP,+05589-090!3b1!3m1!1s0x94ce56652743431f:0x3c627c014ae016d3

Texto e fotos: Francine Sakata, setembro de 2015

Referências:

http://site.sabesp.com.br/site/imprensa/noticias-detalhe.aspx?secaoId=65&id=6638

http://www.areasverdesdascidades.com.br/2015/08/parque-sabesp-butanta.html

http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/urbanismo/escritorio-levisky-arquitetos-assina-o-projeto-do-parque-sabesp-butanta-304511-1.aspx

Sobre as calçadas na Alemanha

Não é novidade que as calçadas em São Paulo e no Brasil em geral são desconfortáveis e cheias de problemas. Ser pedestre em São Paulo é um pequeno desafio. E isso se percebe com ainda mais clareza depois de se acostumar por um tempo com calçadas bem projetadas e executadas. A Alemanha tem bastantes dessas.

A primeira coisa que você talvez perceba passeando por uma cidade alemã é a grande quantidade de calçadões e áreas só para pedestres (e bicicletas), especialmente nos centros históricos. Aliás, uma pequena observação antes de continuar: toda área exclusiva para pedestre é livre para bicicletas também, então sempre que eu disser pedestres pense pessoas e ciclistas.

É super comum que tenha um calçadão principal, bem grande, bem comprido, que também é a rua comercial mais importante da cidade. Em Dresden, é a Prager Straße, essa daqui:

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Dá para ir quase só em áreas exclusivas para pedestres da estação central até o norte da cidade, a Neustadt. Você vai pela Prager Straße, segue pelas ruazinhas que levam à igreja principal, a Frauenkirche, continua por um calçadão-terraço ao longo do rio, cruza uma ponte que pode ser que em breve seja exclusiva para pedestres também, e continua pela Haupstraße, uma simpática rua comercial super arborizada.

Área só para pedestres no entorno da Frauenkirche

Hauptstraße em Dresden

Hauptstraße em Dresden

E Dresden não é exceção. Calçadões em ruas comerciais nos centros históricos de várias outras cidades podem ser vistos nas fotos abaixo:

Schildergasse em Colônia

Frankfurt

Mas não são só os calçadões que fazem das ruas alemãs especialmente confortáveis para pedestres (até porque calçadões no centro histórico também não são raros no Brasil). O desenho das calçadas é muito cuidadoso, e sua execução muito precisa.

As calçadas são frequentemente arborizadas por aqui. Uma maneira de fazer isso, quando a calçada não é suficientemente larga, é pegar o espaço de uma vaga de carro (a cada x metros) para plantar uma árvore. Como nos exemplos das fotos abaixo:

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No geral as ruas não são desenhadas tendo o carro como prioridade, mas sim o pedestre. Um outro exemplo disso são as esquinas. Quando é permitido estacionar na rua, com freqüência a esquina é alargada, tomando o espaço das vagas, para permitir maior visibilidade tanto para o pedestre quanto para o carro que vai fazer a conversão, e proporcionando ainda um espaço extra para o pedestre esperar antes de atravessar, sem ficar no caminho de quem está passando.

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Também não é raro que, em algumas ruas com pouco tráfego de automóveis, não haja desnível entre a rua e a calçada, de maneira que a rua é, de certa forma, uma extensão da calçada. É o carro que tem que dar a prioridade para os pedestres e ciclistas, claro.

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E quando eu falo da execução e do acabamento: são alguns detalhes aqui e ali na construção da rua e calçada que deixa tudo mais simpático e arrumado. Por exemplo, quando é possível estacionar em um dos lados da rua, freqüentemente a área para vagas tem um piso diferente, por exemplo um paralelepípedo, pra separar visualmente essa área do leito carroçável. Nos grandes calçadões, desenhos de piso com diferentes materiais criam essa organização e delimitação do espaço sem a necessidade de bloqueios físicos e visualmente indesejáveis. Quando o bloqueio físico é necessário – por exemplo para impedir que carros entrem em calçadões – ele é feito com elementos singelos e discretos, que não atrapalham o fluxo de pedestres, ou ainda com elementos que possam ter outros usos, como banco por exemplo.

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Desenhos de piso marcando diferentes espaços

Desenho de piso

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E às vezes são pequenos detalhes que mostram o cuidado com que esses espaços são pensados. Por exemplo nesse calçadão, como o material do piso muda em volta do mobiliário urbano, fazendo com que cada lata de lixo ou poste de luz se encaixe perfeitamente no espaço que ocupa. Mobiliário urbano é outra coisa a se elogiar também: bancos em calçadas e calçadões não são raros, e freqüentemente bem projetados. Até a maneira como a água pluvial é recolhida ao longo das ruas é feita cuidadosamente: grelhas discretas e bocas-de-lobo bem escondidas fazem o trabalho sem prejudicar visualmente o espaço.

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Drenagem de água pluvial

Drenagem de água pluvial

Mobiliário urbano em uma praça

Um detalhe a que raramente se dá atenção, mas que faz diferença na qualidade do acabamento do piso é o encontro do piso com o edifício. Alguns bons exemplos:

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Além disso, não é raro que as calçadas e calçadões se misturem com áreas privadas dentro de lotes de edifícios diversos. Às vezes o uso público desse espaço privado é desejado e encorajado – quando por exemplo uma passagem é criada ligando duas ruas por dentro de um lote privado – às vezes indesejado e desencorajado. A grande diferença é que a separação no último caso não é feita com portões e muros hostis que tiram a permeabilidade visual dos espaços públicos mas com pequenos elementos que já avisam ao passante que aquele espaço é menos aberto – embora não completamente fechado – que o espaço público. Vegetação, desnível ou uma entrada estreita são alguns desses elementos.

Passagem aberta por dentro de lotes privados conectando duas ruas. Com restaurantes e lojinhas.

Essa área é aberta mas é claramente marcada como privativa pela diferença de piso que desencoraja o transeunte a entrar.

E como já descrevi nos posts sobre bicicletas, as ruas alemãs são desenhadas para caber todo mundo – o pedestre, a bicicleta, a cadeira de rodas, o transporte público, a árvore e, quando sobra um espacinho, o carro também. Eu nunca tentei cruzar a cidade numa cadeira de rodas, mas suspeito que não seja muito difícil – não é totalmente incomum ver pessoas em cadeiras de roda sem acompanhantes por aí, e quem como eu anda quase sempre de bicicleta também logo percebe como são incomuns calçadas sem rebaixamento na esquina. Eu posso contar nos dedos as de Dresden, são tão raras que sei exatamente onde estão.

Área rebaixada para cadeira de rodas.

E, talvez a coisa mais importante para o conforto visual dos cidadãos e, inclusive, sua segurança: você nunca vai ver numa cidade alemã fiação aérea. Tipo nunca. Nunca vi. Só em área rural e mesmo assim bem de vez em quando. Toda a fiação é enterrada, e que diferença gigante isso faz para a cidade. Ainda que isso não significasse uma melhoria na segurança – mas significa – só pela questão estética já faz todo o sentido ter a fiação enterrada. Estética urbana não é uma questão pequena e insignificante, ela influencia demais a qualidade de vida das pessoas. Há estudos que mostram, por exemplo, que um espaço arborizado facilita a recuperação de pacientes em hospitais, melhora a socialização entre vizinhos em um bairro, e até é responsável pela diminuição da criminalidade local. A fiação aérea prejudica demais a estética da cidade e certamente também contribui para aumentar o stress e a insatisfação das pessoas que nela moram.

Algumas fotos para terminar:

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Texto e fotos: Laís Flores

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Laís Flores é arquiteta e urbanista e escreve sobre a experiência de viver na Alemanha no blog Manha de Alemanha. O texto sobre as calçadas foi publicado em 29/08/2015.

https://manhadealemanha.wordpress.com/

https://manhadealemanha.wordpress.com/2015/08/29/calcadas/

O caso raro do Itaú Conceição

Em São Paulo, a estação Conceição do metrô é acessada por uma praça muito sofisticada, ornada com vegetação, espelhos d´água e esculturas.  Junto à saída da estação, sob a copa da árvore, meninos dançam hip-hop.  Escadaria acima está um terminal de ônibus movimentado. A praça é também entrada de cinco edifícios administrativos do Banco Itaú. É um caso raro de espaço público de grande qualidade, executado e mantido por uma empresa privada.

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O nome oficial é Praça Alfredo Egydio de Souza Aranha mas o lugar é também o Centro Empresarial Itaú Conceição. Concluído em 1990, este conjunto tem origem em uma operação urbana conduzida pela Emurb, a Empresa Municipal de Urbanização, por ocasião da construção do metrô. A venda de terrenos para o banco que tiveram que ser desapropriados e comprados para a obra do metrô era uma forma de recuperar parte do investimento. O projeto foi feito pela Itauplan para a Emurb. O paisagismo ficou por conta de Maria de Lourdes Oliveira.

Os edifícios foram posicionados girados para não parecerem um bloco único. Uma das torres foi feita espelhada e sobre um apoio único central.  Mas o que chama a atenção é a praça. Conta-se que o dono do banco mandou os projetistas viajarem pelo mundo pesquisando fontes e chafarizes.

Se alguém for fotografar o espaço, surgirão seguranças questionando a finalidade das imagens. Eles estão lá o tempo todo, fazendo a vigilância do banco mas são uma presença sutil e não há muros ou grades. Em geral, no Brasil, há barreiras agressivas separando o espaço público do privado. Ali são os espelhos d´água que fazem esta separação entre as áreas de circulação do povo e os halls de entrada dos edifícios. Visualmente parte dos espaços privados continua acessível e tudo foi feito com a mesma qualidade, com os mesmos pisos de granito e mosaico português vermelho.

Para um lugar assim nascer, é porque deu certo de juntar muita gente esclarecida. Será que o Parque Augusta não  podia ganhar um projeto assim, inteligente e bem feito, para o empreendedor, o povo, a prefeitura, todo mundo sair ganhando?

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Texto: Francine Sakata.  Fotos: Caroline RibeiroCauê Aragão/ 2014.

Referência:

ROBBA, Fabio e MACEDO, Silvio Soares. Praças Brasileiras. São Paulo: Edusp, 2002.

Para que reconstruir o Vale do Anhangabaú?

A prefeitura de São Paulo anuncia em agosto de 2015 um projeto novo para o Vale do Anhangabaú. Pelo que se conhece, tudo começou com algumas oficinas de discussão em 2013, que contaram com a orientação do dinamarquês Jan Gehl e o apoio do Banco Itaú, em que foram avaliados os usos do espaço, os percursos e as reclamações dos usuários. Constatou-se que é um lugar com muita passagem e pouca permanência. E foram lançadas visões para a transformação do espaço.

A proposta que será apresentada pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano (SMDU) e pela SP Urbanismo vai bem até a parte em que propõe “fachadas ativas” porque vitrines são mais interessantes para os pedestres que muros e portas fechadas e pede por mais atrações e mais bancos, para que as pessoas possam se sentar e se deixar ficar. Mas depois a proposta desanda, porque prescreve que, para o incremento dos usos, seria também preciso trocar toda pedra portuguesa por outro piso mais liso, eliminar todos os desníveis e criar muitas fontes d´água com jatos que saem do piso e seriam desligados para a realização de eventos no Vale.

Projeto proposto em julho de 2015 pela SMDU da PMSP
Projeto proposto pela SMDU

Por que descartar sem cerimônia o projeto implantado, de autoria de Jorge Wilheim e Rosa Kliass, vencedor de um concurso nacional, que foi projetado e executado com um esmero raro em espaços públicos?

Antes do concurso, nos anos 1980, o vale estava tomado pela avenida e os pedestres só o cruzavam pelo Viaduto do Chá. Depois de alguns atropelamentos, a solução que estava sendo estudada era a construção de novas passarelas sobre o vale. Mas, incomodado com o que isto representaria para a imagem da cidade, o prefeito acatou o concurso de arquitetura. A equipe vencedora propôs rebaixar a avenida e, sobre a laje, implantar um projeto paisagístico arrojado, com piso em pedra portuguesa e granito rosa, em linhas ora sinuosas, ora geométricas, para o uso do pedestre. Rosa Kliass também desenhou canteiros com vegetação, espelhos d´água, esculturas, banheiro público. A proposta ainda incluía creche e um café junto aos chafarizes.

Foram dez anos até a inauguração em 1991. Pelas dimensões da área, fica claro que a obra consumiu vultosos recursos. Felizmente, o resultado foi muito bom, digno de São Paulo. A pedra portuguesa é apropriada para espaços públicos, além de tradicional e elegante. Mas a manutenção de modo geral e a limpeza, ao longo dos anos, foi irregular e muito aquém da necessidade. Os espelhos d´água, por exemplo, estão desligados há muito tempo. Não é razoável trocá-los por outros.

O banheiro público nunca vimos funcionar. Se o espaço hoje cheira a urina, não é a eliminação do banheiro que vai mudar isto. Certamente não há uma solução fácil para os moradores de rua mas imaginar que não existem é o que menos resolve. Assisti-los, possivelmente, passe por pensar questões como: é desejável ou não que as fontes sejam usadas para lavar roupa? Se não, isto pode ser feito em outro lugar?

Os espaços públicos da cidade têm carências imensas. Neste contexto, o descarte completo do projeto do Vale do Anhangabaú não se justifica. É requalificar um espaço já qualificado. Antes de qualquer obra, é razoável que a prefeitura busque aproveitar o projeto existente com intervenções menores, dentro de um novo programa de gestão e animação. E que lhe dê sempre a devida manutenção. 

Cartão Postal. Foto: Roberto Stajano, 1997.
Cartão Postal. Foto: Roberto Stajano, 1997

Texto: Francine Sakata, agosto de 2015.

Ilha das Caieiras: modelo de participação, projeto e usos

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Em Vitória, a Ilha das Caieiras é um exemplo raro de requalificação social e paisagística. Os espaços livres públicos ali existentes foram tratados e permitem que usos tradicionais dos pescadores e das desfiadeiras de siri convivam com usos cotidianos de lazer da população e com o turismo gastronômico. Tudo emoldurado por uma linda baía onde o sol se põe espetacularmente.

A Ilha das Caieiras é um dos bairros mais antigos de Vitória. Os rios Santa Maria e Bubu desembocavam no manguezal em frente à Ilha, que era um ponto de parada do transporte do café produzido na região Serrana. As famílias ali instaladas desenvolveram a pesca e o desfio de siri. Mas, como fonte de renda, o desfio do siri começou mesmo na década de 1970. Ao longo dos anos, foram sendo abertos restaurantes e a comunidade começou a receber turistas.

Na busca por melhorias, a associação dos pescadores conseguiu formar a peixaria comunitária e um espaço para cozinhar o siri, com um tanque e um queimador. Assim, o pescador pode limpar o produto no momento em que retorna. O pólo gastronômico ali configurado conta com 14 restaurantes que servem as tradicionais moquecas e tortas capixabas, além das barraquinhas, e um deck de madeira para as mesas e seus guarda-sóis, com vista privilegiada da baía. O deck se estende por 550m até a Praça Dom José Batista, que conta com quadra poliesportiva e de areia, playground e academia popular. Por conta desse piso de madeira, esta beira d´água tem unidade e é lida como um conjunto só.

Um trecho desse deck também cumpriu o papel de arrematar fisicamente as construções precárias debruçadas sobre o mangue e conteve a expansão desordenada do conjunto construído. Com a renda que agora aflui, a população faz melhorias e cobre pisos e paredes com cerâmicas estampadas. Nos finais de semana, o número de visitantes é numeroso mas, nos dias de semana, a rotina é pacata e as crianças brincam no parquinho, na água, nos barcos, com as mães e tias em volta.

De uma periferia distante e pobre, que a população de Vitória não visitaria, a Ilha das Caieiras (que, por conta de um aterro, é de fato uma península) ganhou interesse e visibilidade. Tornou-se um destino turístico – simples, autêntico e acolhedor. Neste processo ganharam todos: pescadores, desfiadeiras, famílias, capixabas e forasteiros. Torcemos para que conserve toda sua qualidade.

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Texto e fotos: Francine Sakata