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Parques urbanos de Brasília

Se Brasília era uma cidade-parque na aparência, por conta dos canteiros generosos dos quais brotaram os palácios e os blocos de apartamentos, neste início do século XIX ela vai se consolidando como uma cidade-parque também na apropriação. As mangueiras e outras árvores plantadas após a fundação da cidade (exóticas ao cerrado) estão adultas. O lago Paranoá foi despoluído e, além dos esportes náuticos, proliferam passeios em torno dele e decks se projetando sobre a água. Aos domingos, as pistas do Eixão e seus canteiros laterais abrigam usos de parque como piqueniques, brinquedos infláveis, aulas de skate.

 

Usos de parque aos domingos ao longo do Eixão. Foto: Francine Sakata, 2015.

 

Parque de Uso Múltiplo da Asa Norte, próximo à ponte entre a Asa Norte e o Lago Norte. Sem cercamento, o parque aproveita a presença da água. Foto: Francine Sakata, 2015.

Até 1990, reinavam para os usos de lazer o Parque Rogério Pithon Farias (hoje Sarah Kubitschek), os clubes em torno do Paranoá e também as áreas livres das superquadras. Os terrenos das escolas das escolas eram sempre generosos. Nos bairros de casas,  calçadas, ruas e quintais se prestavam ao lazer cotidiano. A população era menor e, aparentemente, menos animada.

 

A polarização da infraestrutura

Cerca de 60% da população mora fora da área central, que concentra essas áreas tratadas e apropriadas pelo lazer e também os empregos.  Uma grande população é obrigada do deslocamento pendular: de manhã, da periferia que concentra a habitação para o centro que concentra o emprego e, no final do dia, de volta para a periferia. 

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Histórico da ocupação do Distrito Federal e entorno, apresentada por Gunter Kolhsdorf (Unb), na Oficina Quapá-SEL. 

O professor Benny Schvarsberg (UnB)1 defende que a Região Metropolitana de
Brasília passa por um processo de metropolização 360°, isto é, consolida-se um anel
de munícipios-dormitório ao redor do Plano Piloto. Os fluxos pendulares na direção sul são os mais intensos, seguidos daqueles nas direções oeste e norte. Por último, existem ainda fluxos pendulares na direção leste, menos expressivos. O resultado são enormes congestionamentos nos horários de pico matutinos e vespertinos.

Para Giuliana de Freitas (UnB)2, a consolidação do Plano Piloto como espaço das elites trouxe a necessidade de delimitar as áreas de ocupação popular. Assim, as cidades-satélites foram sendo criadas dispersas pelo Distrito Federal, distantes do Plano, criando pequenos núcleos urbanizados, em geral localizados junto às rodovias. Essa política criou grandes vazios urbanos, isto é, porções consideráveis de território predominantemente rural cercados por áreas urbanizadas.

As políticas de ocupação das cidades-satélites sempre visaram o atendimento das camadas mais pobres, através de programas habitacionais e lotes baratos. De tal forma que criou-se uma política habitacional para ricos e outra para pobres, deixando a classe média com poucas opções para aquisição de moradia. Poucos programas visaram atender essa demanda, como a Área Octogonal Sul e Setor Sudoeste, nos anos 1980, o bairro de Águas Claras, que surge nos anos 1990, e o bairro Noroeste, que começou a ser construído em 20093. Assim, os condomínios surgidos ao redor do Plano Piloto surgiram como solução – mesmo que irregular – para essa classe média, com terrenos mais baratos e próximos às áreas de emprego. Esse fato gerou a ocupação irregular de uma série de áreas ambientalmente sensíveis, como a Bacia Paranoá.

Silvio Soares Macedo4 aponta que atualmente são os três sistemas que estruturam a forma urbana do Distrito Federal: o Plano Piloto; o anel de loteamentos horizontais já consolidados que o cercam; e os novos eixos de expansão, sobretudo ao longo de vetores oeste, sudoeste e nordeste. Para ele, a legislação edilícia, além de ser conivente com loteamentos fechados, foi feita sem um projeto consolidado de cidade. Somando-se essa legislação permissiva com as ocupações irregulares, tem-se um planejamento frouxo que pode resultar em perdas na qualidade urbanística nas regiões periféricas.

 

Sobre o sistemas de espaços livres

Os sistemas de espaços livres do Distrito Federal são muito diferentes entre si. O Plano Piloto e os  bairros em torno do lago configuram-se como uma ilha com uma grande oferta de espaços de recreação e uso público enquanto as malhas urbanas dispersas contam com espaços semelhantes aos das periferias das cidades brasileiras. O Plano Piloto apresenta vias com número enorme de faixas e espaços generosos para a circulação de pedestres. Nas cidades-satélites há lotes quase inteiramente ocupados pelas casas, não há os gramados mantidos pelo poder público, há calçadas obstruídas e com problemas. No bairro Águas Claras, o adensamento populacional se deu com uma verticalização massiva, com vias insuficientes e calçadas por vezes inexistentes.5

Os espaços livres do Distrito Federal foram realizados categorizados, durante a Oficina Quapá-SEL, em: (1) Conservação Ambiental; (2) Parques; (3) Praças; e (4) Áreas de circulação de pedestres e veículos, associadas ao sistema viário e associados a edifícios públicos. As Unidades de Conservação Ambiental foram classificadas nos
seguintes tipos: matas nativas, parques ecológicos (Parque Olhos d’ Água, Parque
Ecológico das Águas Claras), estações ecológicas (UnB, Jardim Botânico, Águas
emendadas), resbio (reserva da biosfera do Cerrado, Parque Nacional de Brasília),
reserva particular do patrimônio natural, reserva biológica, Flona (Floresta Nacional
de Brasília) e monumento natural (Morro da Pedreira).

A subcategoria parques ecológicos faz parte tanto do grupo dos Espaços Livres de Conservação Ambiental quanto da categoria Parques.  E, de fato, a associação da conservação ambiental com a fruição pública não apenas é desejável como é necessária para a manutenção do bem natural quanto para a saúde das pessoas.

Nos últimos vinte anos, a expansão da demanda de lazer e pela preservação da vegetação impulsionou a criação de novos parques. Mas a ação mais visível desta pressão tenha sido a desocupação de terrenos à margem do Lago Paranoá. Esses terrenos públicos há muito tempo estavam incorporados aos terrenos particulares das mansões construídas às margens do Lago. Uma das atribuições da Agência de Fiscalização do Distrito Federal (AGEFIS), através do programa “Território da Gente”, foi promover a desobstrução das margens do Lago Paranoá. Desmanchar jardins e decks particulares para reincorporá-los ao patrimônio público não é simples e comum no Brasil.

Plano de desobstrucao do lago sul

Reintegração de posse dos terrenos públicos ao longo do Lago Paranoá, apresentada por Rubens Amaral (Agefis), na Oficina Quapá-SEL

 

Os parques

Os parques, na Oficina Quapá-SEL, foram divididos em: (1) recreativos, com exemplo o Parque Multifuncional da Asa Norte; (2) esportivos, como o Parque Ecológico Três Meninas e o Taguaparque; (3) de conservação, como o Parque Nacional; e (4) mistos, como o Parque da Cidade, o Jequitibá e o Saburo Onoyama. Este grupo identificou 27 parques implantados, 3 em construção e 43 não implantados.5

Espaços Livres

Na mesma época, o IBRAM – Instituto Brasília Ambiental diz que o Distrito Federal possui 72 parques ecológicos e urbanos, além de outras 22 unidades de conservação de proteção integral ou de uso sustentável.7  Destes 72 parques, 33 constam do Guia de Parques do Distrito Federal8, pois na ocasião da publicação “considerados em condições de receber visitantes que buscam espaço para realizar atividades físicas, de lazer ou simplesmente contemplação da natureza. O Ibram não especifica quais são considerados ecológicos, quais são urbanos.

 

Espaços Livres

Existe uma dificuldade para a contagem dos parques. Se um parque é criado e equipado para uso público, a partir do momento em que isto se degrada e o uso se inviabiliza, este parque deve ser contado como tal? O conceito de parque está ligado à gestão e se um espaço não é gerido como tal, deixa de ser um parque. O Parque das Copaíbas, por exemplo, está com parte de sua área invadida e sem visitação e, portanto, não deve ser contado.

O processo de criação dos parques começou com a identificação, em mapa, uma conjunto de áreas que poderiam ser conservadas. Essa proposta foi ganhando corpo e os parques foram sistematicamente sendo criados. Assim, os parques deste período no Distrito Federal foram criados visando à conservação ambiental, com verbas oriundas de termos de compensação.

Um estudo revelou que do conjunto da área dos parques, 1% é área de lazer, 58% vegetação nativa e 41% são áreas degradadas (sendo que, destas 60% podem ser recuperadas).9

P1090228BSB_BOSQUEsODUESTE_20170108 (16)Parque Bosque do Sudoeste, um parque urbano definitivamente. Conta com equipamentos esportivos e as árvores plantadas, que estão por crescer. O uso é intenso e sua criação foi celebrada na cidade. Foto: Francine Sakata, 2017. 

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Parque Olhos D´Água. Compõe-se basicamente de percurso quase perimetral que atravessa lagoas, bosques e campos de cerrado. Bancos, cercamentos e sinalização são rústicos e foram posicionados sem um projeto arquitetônico formal. Conta-se que população solicitou a criação do parque após um crime ter sido cometido na área. Tem uso muito intenso para caminhadas, tanto interna quanto externamente. Foto: Francine Sakata, 2017.

Mas, ainda que as verbas tenham sido suficientes para expandir o conjunto de parques, na prática, faltam recursos para a manutenção. Nilton Reis, presidente Instituto Brasília Ambiental em 2014, relatou que em um parque havia um carrinho para transportar pessoas com deficiência mas não havia funcionários para guiá-lo. Os recursos de compensação também são incertos e a manutenção de um parque em operação nunca cessa. Assim, em 2014, começaram a buscar modelos de gestão compartilhada nos parques que fossem replicáveis e sustentáveis a longo prazo10 . Outro problema que afeta os parques do DF são os incêndios. Quando o Cerrado era abundante, as queimadas faziam parte da dinâmica ecológica e recuperação podia demorar 100 anos. Agora que está o Cerrado está sendo extinto, as queimadas são um problema mas os parques ecológicos ou urbanos são parte da solução.     

Nos anos 2014 a 2017 a criação de novos parques não teve fôlego. Mas foi realizado um concurso nacional de arquitetura para os parques Central e Sul de Águas Claras. Ainda que tivesse recebido investimentos em sua estrutura, o Parque Águas Claras ainda não é um parque completo, com um projeto vistoso que lhe confira identidade e que eleve o status dos apartamentos de Águas Claras. Se for implantado, a classe média do Distrito Federal, que tem poder aquisitivo mais alto que a classe média do restante do país, poderá contar com mais um equipamento urbano de qualidade para usufruir. O futuro no planalto central parece sempre mais animador.

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Projeto vencedor de Lucia Porto, Sidney Linhares e equipe para o Concurso Nacional para os parques Central e Sul de Águas Claras, promovido pelo GDF em 2017.  O juri considerou que a proposta solucionava “temas importantes como: articulação urbanística, conjuntos arquitetônicos, biodiversidade de ecossistemas do cerrado, conexões dos extratos arbóreos, soluções de drenagem, permeabilidade do solo e valorização da fauna”.12

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Fontes:
1  Palestra de Benny Schvarsberg (UnB). Relatório da Oficina Quapá-SEL Brasília de 04 a 06/11/2015, elaborado por Giovanni Vespe e Tiago Regueira.
2 Palestra de Giuliana de Freitas (UnB). Relatório da Oficina Quapá-SEL Brasília de 04 a 06/11/2015, elaborado por Giovanni Vespe e Tiago Regueira.
3  Sobre o Bairro Noroeste: http://repositorio.uniceub.br/bitstream/123456789/1114/2/20682188.pdf
4  Conclusão de Silvio Soares Macedo. Relatório da Oficina Quapá-SEL Brasília de 04 a 06/11/2015, elaborado por Giovanni Vespe e Tiago Regueira.
5  Grupo de Trabalho Sistemas de Espaços Livres, formado por Camila Gomes, Caroline de Lima, Gabriela Maia, Giovanni Vespe, Giuliana Brito e Maria Alice. Relatório da Oficina Quapá-SEL Brasília de 04 a 06/11/2015, elaborado por Giovanni Vespe e Tiago Regueira.
7 Parques listados no site do IBRAM. http://www.ibram.df.gov.br/informacoes/parques.html, acessado em 14/11/2017.
Águas Claras: Parque Ecológico Águas Claras
Brasília: Parque Ecológico e de Uso Múltiplo Olhos d’Água; Parque de Uso Múltiplo da Asa Sul; Parque das Aves (dos Pássaros); Parque de Uso Múltiplo da Vila Planalto; Parque de Uso Múltiplo da Enseada Norte
Brazlândia: Parque Ecológico Veredinha
Candangolândia: Parque Ecológico e Vivencial da Candangolândia (Pioneiros)
Ceilândia: Parque Corujas; Parque Ecológico e Vivencial do Rio Descoberto; Parque Lagoinha; Parque Recreativo do Setor “O”
Gama: Parque Ecológico e Vivencial da Ponte Alta do Gama; Parque Recreativo do Gama – Prainha; Parque Urbano e Vivencial do Gama (Norte)
Guará: Parque Ecológico e Vivencial Bosque dos Eucaliptos; Parque Ecológico Ezechias Heringer; Parque Vivencial Denner
Lago Norte: Parque de Uso Múltiplo do Lago Norte; Parque de Uso Múltiplo Morro do Careca; Parque Ecológico das Garças; Parque Ecológico do Taquari
Lago Sul: Parque das Copaíbas; Parque Ecológico Bernardo Sayão (Rasgado); Parque Ecológico Dom Bosco; Parque Ecológico e Vivencial Canjerana; Parque Ecológico Garça Branca; Parque Ecológico Península Sul; Parque Vivencial do Anfiteatro Natural do Lago Sul
Núcleo Bandeirante: Parque Ecológico Córrego da Onça; Parque Ecológico Lauro Müller; Parque Ecológico Luiz Cruls; Parque Recreativo do Núcleo Bandeirante
Paranoá: Parque de Uso Múltiplo das Esculturas; Parque Ecológico da Cachoeirinha; Parque Urbano do Paranoá; Parque Vivencial dos Pinheiros
Planaltina: Parque Ecológico Vivencial Estância; Parque Ambiental Colégio Agrícola de Brasília; Parque de Uso Múltiplo Vale do Amanhecer; Parque Ecológico do DER; Parque Ecológico dos Pequizeiros; Parque Ecológico e Vivencial Cachoeira do Pipiripau; Parque Ecológico e Vivencial do Retirinho; Parque Ecológico e Vivencial Lagoa Joaquim de Medeiros; Parque Recreativo Sucupira
Recanto das Emas: Parque Ecológico e Vivencial Recanto das Emas
Riacho Fundo: Parque Ecológico e Vivencial do Riacho Fundo
Samambaia: Parque Ecológico e de Uso Múltiplo Gatumé; Parque Três Meninas
Santa Maria: Parque Recreativo de Santa Maria; Parque Ecológico do Tororó; Parque Distrital Salto do Tororó
São Sebastião: Parque São Sebastião
SCIA: Parque Urbano da Vila Estrutural
Sobradinho: Parque de Uso Múltiplo Centro de Lazer e Cultural Viva Sobradinho (Recreativo Sobradinho II); Parque Ecológico dos Jequitibás; Parque Ecológico e Vivencial de Sobradinho; Parque Recreativo e Ecológico Canela de Ema
Sudoeste/Ocotogonal: Parque de Uso Múltiplo das Sucupiras; Parque Urbano Bosque do Sudoeste
Taguatinga: Parque do Areal; Parque Lago do Cortado; Parque Ecológico Saburo Onoyama; Parque Recreativo Taguatinga; Parque Boca da Mata; Parque Ecológico Irmão Afonso Hauss
Varjão: Parque Ecológico e Vivencial da Vila Varjão
Parques urbanos com gerência especial das Administrações Regionais: Parque de Uso Múltiplo Taguaparque (RA III – Taguatinga) e Parque Dona Sarah Kubitschek (RA I – Brasília).
8 Guia de Parques do Distrito Federal.  Instituto do Meio Ambientee dos Recursos Hídricos. – Brasília, DF: IBRAM, 2013.
Disponível em: http://www.ibram.df.gov.br/images/GUIA-DE-PARQUES-PAGINAS-SOLTAS%202%201%201.pdf
9 Parques considerados implantados no âmbito do programa Programa Brasília, Cidade Parque, com verbas de compensação ambiental
http://www.ibram.df.gov.br/component/content/article/297.html
Entregues:
Parque dos Jequitibás
Parque Asa Sul
Parque Ecológico Ezechias Heringer
Parque Bosque do Sudoeste
Parque Ecológico Águas Claras
Parque do Areal
Parque Ecológico Dom Bosco
Parque Ecológico Três Meninas
Parque Olhos D’Água
Jardim Botânico de Brasília (investimentos)
Parque Ecológico Saburo Onoyama
Parque Lago do Cortado
11 Evento Parques do Brasil, promovido por Arq. Futuro em São Paulo em 07/10/2014. Painel Compensação ambiental: os compromissos com o desenvolvimento urbano, com Ricardo Birmann, presidente da Urbanizadora Paranoazinho S/A e Nilton Reis, presidente Instituto Brasília Ambiental (Ibram/DF). Em http://arqfuturo.com.br/encontros/post/623
12 Premiados no Concurso Parque de Águas Claras, DF – pranchas e ata de julgamento.
https://concursosdeprojeto.org/2017/04/26/premiados-concurso-nacional-parques-de-aguas-claras-df/, acessado em 14/11/2017.
Agradecimento: Amilcar Gramacho e Paulo Barreiros.
Texto: Francine Sakata, novembro de 2017.
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