Arquivo da categoria: Parques públicos

Parques de Porto Alegre

O município de Porto Alegre, segundo a Secretaria Municipal do Meio Ambiente e da Sustentabilidade (SMAMS)¹, conta com 8 parques urbanos, 637 praças urbanizadas e 4 unidades de conservação. Até 2017, esta secretaria era responsável pela implantação e manutenção das praças e parques de Porto Alegre. A partir deste ano, a manutenção das praças foi repassada à Secretaria de Obras e dos parques foi mantida com a SMAMS.
No entendimento dos técnicos da secretaria, os espaços públicos das praças e parques são destinados ao lazer, ao esporte, à contemplação e interação social; contribuem para o equilíbrio ambiental das cidades; são estruturadores do tecido urbano; e neles, as edificações devem ser evitadas ou minimizadas.
Para a prefeitura, os parques são áreas verdes com área superior a 100.000m², ainda que haja parques com área menor. São áreas com abrangência urbana, ao contrário das praças que são consideradas de abrangência local, e contam com administração própria – com sede e edificações de apoio. Assim, cada parque tem uma equipe própria de manutenção. Uma característica dos parques de Porto Alegre é que não são cercados, com exceção do Parque Germânia. A questão dos cercamentos dos parques é pauta de discussões na cidade.

Algumas unidades de preservação são áreas controladas e não tem acesso público, como o Parque Natural Municipal Morro do Osso, o Parque Estadual Delta do Jacuí e Reserva Biológica do Lami José Lutzenberger.²

Os espaços livres de uso público no município têm surgido pricipalmente por conta da obrigação legal do empreendedor de destinar áreas públicas por ocasião do parcelamento do solo. O projeto deste espaço deve seguir as diretrizes da SMAMS e tem sido, em geral, executado pelo empreendedor. As áreas doadas ao município são mais compatíveis, pelo porte, com praças do que com parques. Os Termos de Compensação Ambiental não foram utilizados para construir ou equipar parques inteiros. Em Porto Alegre, até 2018, as praças não perderam protagonismo para os parques.

O trecho da cidade que tem recebido mais atenção e investimentos é a Orla do Rio (ou Lago) Guaíba, desde a área central até o Museu Yberê Camargo, ao sul. Há uma sequência de praças que foram revitalizadas pela prefeitura, algumas incluídas no pacote de obras para a Copa do Mundo de 2014. Será inaugurado, em 2018, um calçadão em torno da Usina do Gasômetro, projetado pela equipe do arquiteto Jaime Lerner, com terminal turístico para barcos de passeio, restaurante, bares, playground, academias ao ar livre, quadras esportivas, caminhos com arquibancadas para contemplação do pôr-do-sol, decks que se projetam sobre a água, ciclovia, jardins aquáticos, postes de iluminação altos e vistosos. Este trecho já possuía intensa apropriação para o passeio e a contemplação mas não possuía um tratamento sofisticado.

FORMA URBANA E SITEMA DE ESPAÇOS LIVRES

Parque Urbano da Orla do Guaíba, 1a fase, com 1.320m de extensão, entre o Centro Cultural Usina do Gasômetro e a Rótula das Cuias (2018), projeto do urbanista Jaime Lerner. Aos domingos, parte da Avenida Edvaldo Pereira Paiva (Beira-Rio) fica bloqueada para automóveis. Foto: Fábio Mariz Gonçalves, 2018. 

Junto à orla também está o Parque Marinha do Brasil e o Parque Maurício Sirotski, este último com apropriação eventual, em eventos itinerantes. O restante da Orla do Guaíba no município segue com vários graus de tratamento e de apropriação: há trechos com acesso público; trechos com o acesso pelos clubes náuticos; e trechos sem acesso público. Em frente ao Museu Yberê Camargo, uma faixa estreita tem sido intensamente utilizada (2018) para a contemplação do pôr-do-sol. Mais ao sul, no bairro Guarujá, há uma praia de areia e o calçadão de Ipanema, também com muito uso ainda que não muito largo. A praia de Ipanema até os anos 1960 era balneável, situação que se modificou com a expansão da cidade.

Entre os novos parques, o Parque Gabriel Knijnik (2004) era o sítio do engenheiro que dá nome ao parque, doador da área para que fosse transformada em parque municipal. O acesso é difícil. Possui pomar, uma área de banhado e uma grande área de preservação. Foram construídos sanitários, coreto, playground, churrasqueiras, duas quadras de futebol, cancha de bocha, passeios e estacionamento. Do alto do mirante, atualmente fechado, era possível avistar a área rural e a área urbana de Porto Alegre.

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Parque Gabriel Knijnik (2004), sítio particular doado em testamento à prefeitura. Fotos: Sérgio Louruz_PMPA, 2010.

O Parque Germânia (2006) foi planejado e construído por uma construtora e está circundado por empreendimentos imobiliários. Ao servir como espaço de lazer para os moradores, valoriza o entorno. A ideia era justamente esta, qualificar este setor da cidade para a moradia das camadas de alta renda que resistiam em mudar das áreas tradicionais da elite na cidade, como daquela em torno do Parque Moinhos de Vento. É um parque completo, com lago, gramados, administração, quadras de tênis, vôlei, basquete e futebol de salão, cancha de bocha, playgrounds, aparelhos de ginástica, caminhos para corrida ou caminhada, jardins para descanso e contemplação da natureza e uma área de preservação. Foi anunciado por seus idealizadores como sendo o primeiro parque cercado da cidade, o que não é necessariamente uma qualidade.
Em um bairro de população de rendas mais baixas, o Parque Chico Mendes e a Praça México, quase vizinhos, são desafios para a gestão municipal. O primeiro tem problemas com invasões, tráfico e insegurança e a segunda foi bem apropriada e recebida pela população.

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Parque Germânia (2016), com 150.000m². Segundo a construtora Goldsztein S/A, que concebeu o bairro Jardim Europa, o parque foi construído por ela e doado a Porto Alegre. Fotos: Silvio Macedo, 2010.

Os parquesTabela de Parques - Porto Alegre

Parques na malha urbana - Porto Alegre

Mapa de parques e rendas - Porto Alegre

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Fontes:
1 A Oficina Quapá SEL de Porto Alegre contou com palestra e participação de Marcos B. Profes e Sergio Tomasini, da SMAMS. SAKATA, Francine; DONOSO, Veronica; REIS, Juliana. Relatório Oficina Quapá-SEL Porto Alegre – 4 a 6 de abril de 2018, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. FAUUSP, 2018.
2 Secretaria do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Smams) do governo do Estado do Rio Grande do Sul: Disponível em: http://www.sema.rs.gov.br/unidades-de-conservacao-2016-10
Texto: Francine Sakata, 2018.
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Pier C, uma ilha-parque com vista para Manhattan

Nas cidades ricas do mundo, muitos parques impressionantes foram feitos nos anos 2000, na linha dos primeiros parques contemporâneos de Barcelona e Paris. Ainda que seja muito comentado o caso do High Line Park de Nova York, construído sobre uma linha férrea elevada, as obras de paisagismo mais vistosas dos anos 2000 são, sem dúvida, os waterfronts.

Em muitas grandes cidades, as estruturas portuárias ficaram obsoletas e vem sendo requalificadas para uso urbano. Em Nova York, toda a orla do rio Hudson, que nunca foi muito apropriada pela população, vai virando uma sequencia de espaços de lazer e de apartamentos valorizados para o mercado imobiliário. Tanto do lado de Manhattan, quando do lado do Brooklin, há waterfronts.

Do outro lado, a pequena Hoboken, já no estado de Nova Jersey, entrou no movimento e, assim, deixa de ser apenas a cidade do “Cake Boss” da TV. Em 20 minutos de barco ou de metrô se chega a estação do World Trade Center. Hoboken não teria porque não ser um local valorizado para a moradia.

Aberto em 2010, o projeto do Pier C Park é de Michael Van Valkenburgh Associates Inc e é muito sofisticado. Nas bordas há decks e muitos bancos para apreciar a vista. O gradil é de inox e tem um desenho único. Adultos ainda podem pescar e há um tanque para limpar os peixes mas, em nossa visita, não pudemos presenciar este uso. E, no projeto de plantio, foi feito um esforço para que as plantas pudessem abrigar ninhos de aves, o que também não ficou claro para nós que aconteça.

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A parte interna foi trabalhada com barreiras e morrinhos e os brinquedos estão ‘escondidos’ em recantos. A sequencia de surpresas faz o espaço parecer maior. O playground é dividido em uma área pré-escolar e uma área de jogo em idade escolar. Há estruturas para escalar e esconder, tanque de areia, jogos de água, planos inclinados escaláveis, brinquedos. Há ainda um percurso contínuo para bicicletinhas.

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Texto e fotos: Francine Sakata. Imagens de novembro de 2014.

Foto aérea e planta: http://www.mvvainc.com

 

Referências:

http://www.mvvainc.com/project.php?id=11

http://www.gsd.harvard.edu/project/pier-c-park/

Resenha – Parques urbanos municipais de São Paulo: subsídios para a gestão

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Entre os estudiosos e os administradores de parques, existe uma grande discussão sobre qual é a função do parque público como um espaço de vivência concomitante com a preservação ambiental. Esta e outras questões sobre o tema estão reunidas na publicação Parques urbanos municipais de São Paulo: subsídios para a gestão. Feita em 2008, pela Oscip Instituto Sócio Ambiental (ISA) e pela Secretaria do Verde e Meio Ambiente (SVMA) através de estudos e diversas atividades para a elaboração de forma participativa de subsídios para a gestão dos parques urbanos municipais.¹

Entre as atividades desenvolvidas estavam questionários, reuniões e 4 oficinas com os administradores dos parques e 1 oficina em cada parque organizada pelo administrador com o conselho gestor e a comunidade de freqüentadores dos parques. Também foram feitas pesquisas com os usuários e a categorização dos parques por tamanho e uso. Nesta resenha, buscamos destacar alguns pontos principais:

• Verificou-se a grande diversidade dos parques no que ser refere a dimensões, funções, serviços prestados (ambientais e de lazer) e preservação de patrimônio.

• O papel dos administradores é fundamental, com destaque para iniciativas, zelo, articulações institucionais e programa. Um dos exemplos colhidos foi a realização de uma pesquisa, pelo administrador, com usuários no Parque Chácara das Flores que revelou que moradores próximos tinham preconceito com o parque, que o consideravam espaço para a violência. Foi feito um trabalho de reforço da segurança e aproximação maior com os moradores e a percepção das pessoas foi mudando. (p. 28)

• A presença de equipamentos de outras secretarias e entidades (como Telecentros, centros de convivência e cooperativas) são importantes para a frequência dos usuários do parque.

• Em relação à história de criação do parque, é importante que o administrador se aproprie dela: se eram praças transformadas em parques; áreas públicas abandonadas gradeadas para evitar que deposição de lixo e entulho; remanescentes de chácaras ou sítios antigos; ou ainda se a implantação do parque foi resultado de conquista de mobilização comunitária. Entender a história do parque é uma das maneiras de entender as relações existentes no local e seus frequentadores. (p.24)

• Foi feita pesquisa com os usuários de 38 parques pelo Datafolha em 2008 que revelou que: a maioria dos entrevistados (80%) mora perto do parque que frequenta; a frequencia é muito semelhante pela manhã ou à tarde mas nos finais de semana é 35% maior; cerca de 10% dos usuários os frequentam 1 vez por mês mas a maioria (81%) dos usuários os frequenta pelo menos uma vez por semana; 63% vão à pé.

• Os objetivos dos usuários, por ordem de importância, são:
– Atividade física (68%): como caminhadas (46%), correr (14%), fazer ginástica (13%). Outros 9% costumam jogar bola (futebol), 3% andam de bicicleta e/ou skate e 2% jogam vôlei, basquete, tênis ou ping-pong;
Lazer ou cultura (35%): levar as crianças para brincar (21%), enquanto 4% vão simplesmente para passear, mesma parcela dos que vão para conversar e encontrar os amigos e dos que vão para passear com o cachorro (4% cada);
Descanso e relaxamento (17%): inclui passar o tempo, meditar, observar a natureza e/ou respirar ar puro;
Atividades promovidas pelo parque (10%), que inclui usar o computador ou ler.

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• A manutenção dos parques da amostra foi bem avaliada pelos frequentadores, sendo os itens espaço, vegetação/ jardinagem e limpeza em geral avaliados como ótimo ou bom por 90% dos usuários. Os entrevistados de classe D (renda familiar até 2 salários mínimos) foram responsáveis pelas aprovações das atividades de lazer e cultura acima da médias. Isto reforça a importância do papel dos parques em áreas carentes de espaços de lazer. 

• Foi perguntado se os frequentadores colaborariam voluntariamente com a manutenção do parque e 71% responderam que sim, o que denota que existem oportunidades para envolver a população.

As pessoas vão aos parques para caminhar, correr, andar de bicicleta, ou simplesmente descansar. Vão também para participar de atividades que os parques de São Paulo oferecem.  “Apesar desse uso, ou quem sabe por causa dele, a saúde ambiental destes espaços – de sua mata, do córrego ou lago do parque, do lixo e locais para recicláveis, dos pássaros e outros animais que habitam o parque – é considerada fundamental para quase a totalidade dos usuários. Usam o parque para seu benefício e saúde, mas sem esquecer que para que isso aconteça o local também precisa estar saudável.” (p. 71)

 

Subsídios para a gestão

O trabalho, então, apresenta um  roteiro passo-a-passo para elaboração dos planos de gestão, etapas para realizar um plano de manejo, para o zoneamento, para programas específicos e para a recuperação do patrimônio histórico. Também é apresentada uma sugestão dos instrumentos de gestão e proposta uma nova categorização para os parques com base no cruzamento de sua dimensão e características.

Como objetivos específicos dos planos de gestão são colocados:
• Localizar cada um dos parques urbanos municipais em regiões com características socioambientais marcantes;
• Identificar as possibilidades de influência mútuas entre cada parque urbano
municipal e seu respectivo entorno imediato e região;
• Definir os papéis de cada parque em função de sua localização;
• Definir a relação do parque (potencial e efetiva) com as demais áreas
verdes de sua região e do município;
• Definir procedimentos administrativos referentes ao cotidiano do parque
mais adequados para todos os parques urbanos municipais;
• Realizar demarcação do parque em zonas;
• Encaminhar programas e projetos específicos e comuns.

Três questões valem destacar:

01. Os administradores são a porta de entrada e saída para políticas públicas para os parques. Eles detém a importante tarefa de perceber as demandas e traduzi-las mas, para isto, deve haver um canal de comunicação entre eles e a Secretaria. Seu escopo de atividades é amplo e envolve a contratação de serviços de segurança e manutenção, relacionamento com os superiores e com a subprefeitura, disciplinamento dos usos e intermediação de todo o tipo de conflitos de usos nos parques, sejam eles cotidianos ou inusitados. Há casos de gente que quer silêncio e os que fazem barulho, de animais abandonados, de incêndios, de furtos, de funcionários com problemas disciplinares, de oficina a ser realizada sem recurso para compra de material, etc. Alguns administradores tem mais talento questões administrativas, outros para relações comunitárias. A troca de experiências acontece informalmente mas pode ser sistematizada e organizada.

02. “É preciso promover políticas públicas integradas dentro e fora dos gradis dos parques, incluindo instrumentos para superar, entre outros desafios, os conflitos de uso e integração com outros setores da Prefeitura. Por exemplo, às vezes um parque é muito demandado para a prática de esportes, no entanto, ao lado dele, ou próximo, às vezes até no mesmo bairro, há um equipamento de esportes da Secretaria de Esportes que está ocioso. Por isso, é fundamental que haja integração dos diferentes programas das Secretarias da administração pública para equilibrar oferta e demanda de equipamentos e atividades aos seus usos compatíveis e mais adequados.”

03. “Há algumas situações novas em relação aos parques que precisarão ser encaradas no processo de planejamento dos parques urbanos municipais, que muitas vezes têm na sua origem uma complexização na gênese e nas funções desenvolvidas nos parques. Uma delas tem relação à gênese dos parques que foram criados a partir de grandes áreas preservadas, como o Parque Anhanguera ou os parques criados a partir do Rodoanel. Esses parques, concebidos como Unidades de Conservação, embora muitas vezes ainda não tenham os planos de manejo para funcionarem como tal, têm na sua concepção uma função que não é mais, prioritariamente o lazer e a recreação dos parques urbanos.” (p.90)

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WHATELY, Marussia; SANTORO, Paula Freire; GONÇALVES, Bárbara Carvalho; GONZATTO, Ana Maria. Parques urbanos municipais de São Paulo: subsídios para a gestão. São Paulo, Instituto Socioambiental, 2008.

Link para download do trabalho em PDF: http://www.terrabrasilis.org.br/ecotecadigital/index.php/estantes/gestao/716-parques-urbanos-municipais-de-sao-paulo-subsidios-para-a-gestao

Nota: 1 O trabalho foi parte do Projeto Ambientes Verdes e Saudáveis: construindo políticas públicas integradas na cidade de São Paulo (PAVS) do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Teve como objetivo “garantir a preservação do patrimônio físico e biológico, a qualidade paisagística e a manutenção e aprimoramento de suas funções de lazer, esporte, recreação e educação ambiental”.

Resenha: Francine Sakata, janeiro de 2017.

Fotos: Francine Sakata – Parque da Vila dos Remédios, São Paulo, em 06/08/2015.

 

Estudo da Poli sobre a desestatização de parques em São Paulo

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A Secretaria Municipal de Verde e Meio Ambiente, que gere mais de cem parques em São Paulo, teve seu orçamento significativamente reduzido a partir de 2014 enquanto a demanda por recursos e pessoal para sua manutenção vem aumentando desde 2005, quando o número de parques municipais cresceu de 34 para 107.  A atual gestão da prefeitura tem defendido a desestatização para vários equipamentos públicos e selecionou um grupo de 14 parques para que a iniciativa privada proponha estudos e modelagens, que servirão de base para um edital de licitação previsto para 2018.

Os alunos Claudio Eduardo Barbosa Cunha, Felipe Bueno Ojima, Felipe Esteves Alcaraz e João Gustavo Puchetti da Silva, do curso de Engenharia Civil da Escola Politécnica na USP apresentaram em dezembro de 2017, o trabalho de graduação: “Desestatização de Parques Urbanos Municipais da cidade de São Paulo: o caso do Parque Chácara do Jockey“, com a orientação de Alex Kenya Abiko, e investigaram a questão projetando custos, receitas potenciais e investimentos gerais. O Parque Chácara do Jockey foi escolhido pela diversidade de usos e possibilidades. “Tem uma área útil relativamente grande (143 mil m²) e várias fontes de receita podem ser desenvolvidas; ainda não é tão conhecido pela população da cidade (foi inaugurado há menos de 2 anos); é um espaço afastado do centro que pode valorizar a região do extremo Oeste da cidade; e é próximo à futura estação de metrô Vila Sônia (com inauguração prevista para 2019), o que poderia gerar grande mobilidade na região e acessibilidade ao parque.”

A gestão pública não tem não tem avaliação negativa por parte da população, mas tem demonstrado algumas deficiências inerentes à atividade estatal, além da redução do orçamento, como a lentidão na renovação de contratos e licitações, a centralização de decisões importantes, pouca participação popular e transparência. Mas o processo de desestatização é polêmico. Primeiro porque é pouco usual e segundo porque o próprio poder público tem sido pouco assertivo em definir o que planeja para os parques da cidade e quais os limites que serão colocados para os agentes privados que eventualmente venham a gerir estes espaços públicos. A opinião pública tem levantado questões importantes: O que acontecerá com a gestão dos parques não rentáveis, na periferia da cidade? Programas sociais e ambientais não vinculados a um retorno financeiro teriam espaço em um parque sob gestão privada? Haveria mais participação popular e transparência sob gestão privada? Reservar espaços para eventos privados dentro do parque é uma forma de privatizá-lo parcialmente? Qual a dimensão dos ganhos sociais que um parque gera frente a seus custos econômicos?

O caso do Parque Burle Marx tem sido usado como referência, embora tenha difícil acesso e não seja plenamente apropriado por toda população em seu entorno. “É o primeiro parque com gestão exclusivamente privada da cidade e demonstra um nível de rentabilidade muito superior a outros parques semelhantes. Rafael Birmann, presidente do conselho da Fundação Aron Birmann, que gere o parque, citou em sua participação no mencionado debate que o parque custa anualmente um montante da ordem de 1,5 milhões de reais e que consegue arrecadar em receitas próprias um valor da ordem de 0,8 milhão de reais (aproximadamente 50% do custo total) ao ano.”

Para os autores do trabalho, a concessão do Parque Chácara do Jockey,  seria vantajosa para o governo municipal por conta da redução dos gastos e melhoraria as condições do parque para o público, aumentando o número de visitantes. Entretanto, o parque precisa de muitos investimentos e só chegaria perto de sua autossuficiência ao fim de um período de 10 anos (prazo da concessão). Para a iniciativa privada, a desoneração total da máquina pública não seria, neste caso, um bom negócio.

Como figura jurídica para a gestão do parque urbano municipal, é recomendado adotar um modelo de Organização Social (OS). Uma associação privada, sem fins lucrativos, que receberia subvenção do Estado para prestar serviços de relevante interesse público. O aporte financeiro da Prefeitura Municipal de São Paulo seria necessário pelo menos até zerar o caixa do parque enquanto esse não se tornar autossuficiente economicamente. Os resultados obtidos pelos alunos são consistentes e muito interessantes para este debate em torno do modelo atual.

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CUNHA, Claudio Eduardo Barbosa, OJIMA, Felipe Bueno, ALCARAZ, Felipe Esteves e SILVA, João Gustavo Puchetti. Desestatização de Parques Urbanos Municipais da cidade de São Paulo: o caso do Parque Chácara do Jockey. Trabalho de graduação apreesentado à EPUSP. São Paulo, 2017.

Resenha e fotos: Francine Sakata. Imagens de 05/06/2016, o Parque Chácara do Jockey uma semana após a inauguração.

 

 

 

 

 

 

Houve um problema no parque? Feche!

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Parque do Sapé: qual o sentido em fechar um parque aberto e não os vizinhos da região? Por que não combater o mosquito?  Foto: Francine Sakata, 2016.

No final de dezembro, a prefeitura de São Paulo decidiu fechar mais dez parques urbanos municipais e agora somam 26 o número de parques fechados, na periferia das zonas norte, leste, sul e oeste, ou pela prefeitura ou pelo Estado . A justificativa é a morte de dez macacos por febre amarela.

A enfermeira do Programa Municipal de Imunização do município, Luciana Ursini, informou para o jornal O GLOBO que não há motivos para pânico nem necessidade de correr ao posto de saúde para a vacinação, exceto para moradores zona norte, alguns bairros da zona sul (distritos de Jardim Ângela, Parelheiros, Marsilac e parte do Capão Redondo) e o distrito Raposo Tavares na zona oeste, nos quais está sendo feita campanha. São Paulo não é uma cidade de transmissão e não tem febre amarela dentro do município. Até dezembro, perto de 1,2 milhão de pessoas haviam sido vacinadas na cidade.

À primeira vista, fechar os parques parece uma medida sensata. Onde no Parque do Sapé haveria macacos?

Fechar os parques parece ser uma medida exagerada, promovida pela desinformação e pelo medo. Estamos com menos verbas, vamos cortar custos, vamos fechar parques na periferia onde as crianças têm menos opções de lazer. E a manutenção deles nem é cara. Nem sei como fecharão o Sapé, que é aberto.

Espaços livres públicos tratados para o caminhar, correr e brincar não são um luxo. Qualidade de vida é um patrimônio das cidades. Cidades são o lugar onde as pessoas vivem, prestam serviços, negociam imóveis, é onde a economia gira. O poder público tem a missão de promover cidades saudáveis e seguras, até para a economia girar.

Brinquedos,  bancos e gramados sem manutenção  degradam muito depressa. Será cada vez mais caro colocar os parques em condições de funcionamento novamente.  Há o risco de deixarem de ser parques não apenas temporariamente mas definitivamente.

Por que não liberar o uso para quem declarar que se vacinou?  Por que não vacinar quem vai ao parque? Assumir a falta de gestão para o problema? A falta de informação é grande mas não creio que fechar estes parques seja solução alguma.

Francine Sakata, jan. 2018

 

Parques Municipais e Estaduais de São Paulo fechados em 10/01/2018

(Atualização: os três parques estaduais foram reabertos pouco depois)

Parque Santo Dias – Capão Redondo

Parque Jd. Herculano – Jd. Herculano

Parque M’Boi Mirim – Jardim Ângela

Parque Guarapiranga

Parque Alves de Lima

Parque Cemucam – Cotia

Parque Raposo Tavares – Jardim Olympia

Parque Juliana de Carvalho Torres – Cohab Raposo Tavares

Parque Linear Feitiço da Vila

Parque Linear Parelheiros

Parque Linear Sapé

Parque Anhanguera – Perus

Parque Cidade de Toronto – Pirituba

Parque Jacintho Alberto – Pirituba

Parque Jardim Felicidade

Parque Linear Canivete – Jardim Damasceno

Parque Linear Córrego do Bispo – Jardim Peri

Parque Lions Clube Tucuruvi

Parque Pinheirinho D’Água – Jaraguá

Parque Rodrigo de Gásperi – Vila Zati

Parque São Domingos

Parque Sena – Palmas do Tremembé

Parque Senhor do Vale

Parque Tenente Brigadeiro Faria Lima – Parque Novo Mundo

Parque Horto Florestal

Parque da Cantareira

Parque Ecológico do Tietê
Leia mais: https://oglobo.globo.com/sociedade/sao-paulo-fecha-mais-dez-parques-apos-morte-de-macacos-pelo-virus-da-febre-amarela-22234635#ixzz53G9I5Qfs

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/12/1946464-febre-amarela-fecha-mais-parques-em-sp-e-prefeitura-leva-acoes-a-zona-oeste.shtml

Parque Lina e Paulo Raia

Texto e fotos: Matheus Casimiro, 2016.

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Este parque de bairro foi implantado em 1980 na região Sul de São Paulo, na Subprefeitura Jabaquara, com a denominação Parque Conceição. É um importante parque municipal, que apesar de pequena dimensão, apresenta características irrefutáveis de um jardim público urbano. Com seus 15 mil m², este exemplo coloca em xeque diversas classificações do Sistema de Áreas Verdes, que tomam como único pressuposto de divisão das tipologias dos espaços verdes, a dimensão de suas áreas.

Ele foi implantado na ocasião de um abrangente Plano de Urbanização, liderada pela antiga EMURB, no bairro Conceição, para a implantação da estação de metrô homônima, da linha Azul. Seu terreno foi preservado pra usufruto público já em 1974, visando a preservação de importantes indivíduos arbóreos já consolidados no sítio à época. Seu projeto e obra foram realizados pelo Departamento de Parques e Áreas Verdes.

É um dos menores parques municipais da cidade até a atualidade, tendo apenas 15 mil m² de área. Sua pequena dimensão o coloca em uma posição de destaque entre os demais parques implantados, sendo semelhante a metragem de outras tipologias do Sistema de Áreas Verdes Municipal. Seu formato do sítio é nucleado e apresenta, além de vistosa vegetação, três instalações prediais de propriedades contíguas das antigas chácaras, que foram adaptadas para receber atividades de cunho artístico.

O seu acesso principal é pela Rua Volkswagen, s/n, havendo outra entrada em fase oposta de seu perímetro, em rua de âmbito local. A maioria de seus limites, contudo, é constituída por divisas de outros lotes, sendo, portanto, de muros com propriedades particulares. Em seu interior, foram criadas pistas de caminhada, áreas de estar, 02 núcleos de playground, equipamentos para idosos, além de infraestruturas de sanitários e bebedouros. Os edifícios abrigam a Escola Municipal de Iniciação Artística, mantida pela Secretaria de Cultura, alem de haver uma pequena administração.

Chama a atenção do parque um pequeno orquidário improvisado em um local de pouca circulação, além de um extenso corredor natural para passagem de águas pluviais. Em um ponto próximo ao nível do viário, há um grotão que permite o percolamento de águas provenientes da chuva de grande parte do seu entorno, que transformam parte do parque em uma linha hídrica natural de drenagem de seu impermeável bairro. A vegetacão em suas margens denunciam o solo úmido, sendo implantado também nesse trecho, uma charmosa ponte metálica ligando dois pontos opostos mais altos do parque, permitindo o cruzamento de pedestres em percurso seco independente do escoamento das águas nessa corrente de água intermitente.

O parque apesar de pequeno, devido a vegetação de grande porte, insere o usuário de modo pleno em ambiente natural. As copas cobrem a abobada do céu e o plano do horizonte, permitindo inclusive, que em certos pontos, chegue a ter perda de referência da localização do usuário. Sua vegetação é composta por bosque de mata atlântica, com exuberantes espécies arbóreas e arbustivas, com composições ornamentais de cenários naturais e antrópicos.

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Ponte metálica. 

Sua conservação é boa. Foram empregados materiais nos equipamentos comuns à sua época de implantação e reconhecidamente duráveis: tijolos aparentes, concreto, pedras e cimentados. Seus percursos são em alguns pontos de pedra portuguesa, outros de pedriscos, outros mesmo cimentados. A calçada perceptivelmente reformada há pouco tempo é também de pedra portuguesa. É interessante notar que o desenho de seus caminhos internos e estares são ortogonais, incomum a tradição dos parques feitos por DEPAVE.

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Destaque aos pisos dos percursos internos. 

Na ocasião da visita, em dia de semana entre as 10h e 12h, observou-se um heterogêneo público que o utilizava: pais e crianças da escola artística, crianças com babás no parquinho, empregados descansando em hora do almoço, idosos papeando, jovens passeando com cachorro ou lendo em um banco sob a sombra de uma árvore. Todos os para ciclos estavam cheios de bicicletas estacionadas denunciando a forma como vários usuários ali achegaram.

Esse é um importante parque municipal, que apesar de pequena dimensão, apresenta características irrefutáveis de um jardim público urbano. Esse exemplo traz luz às reflexões e métodos que tentam categorizar as áreas verdes, contradizendo as afirmações que tipificam parques apenas nos casos de grandes dimensões. O Parque Lina e Paulo Raia com seus 15 mil m² coloca em xeque diversas dessas classificações do Sistema de Áreas Verdes, que tomam como único pressuposto de divisão das tipologias dos espaços verdes, a dimensão de suas áreas. Esse é um exemplo de parque público, de abrangência local, que cumpre excepcionalmente a sua função de bairro, e traz um refúgio verde em meio a concretada região do Jabaquara.

 

Parques urbanos de Brasília

Se Brasília era uma cidade-parque na aparência, por conta dos canteiros generosos dos quais brotaram os palácios e os blocos de apartamentos, neste início do século XIX ela vai se consolidando como uma cidade-parque também na apropriação. As mangueiras e outras árvores plantadas após a fundação da cidade (exóticas ao cerrado) estão adultas. O lago Paranoá foi despoluído e, além dos esportes náuticos, proliferam passeios em torno dele e decks se projetando sobre a água. Aos domingos, as pistas do Eixão e seus canteiros laterais abrigam usos de parque como piqueniques, brinquedos infláveis, aulas de skate.

 

Usos de parque aos domingos ao longo do Eixão. Foto: Francine Sakata, 2015.

 

Parque de Uso Múltiplo da Asa Norte, próximo à ponte entre a Asa Norte e o Lago Norte. Sem cercamento, o parque aproveita a presença da água. Foto: Francine Sakata, 2015.

Até 1990, reinavam para os usos de lazer o Parque Rogério Pithon Farias (hoje Sarah Kubitschek), os clubes em torno do Paranoá e também as áreas livres das superquadras. Os terrenos das escolas das escolas eram sempre generosos. Nos bairros de casas,  calçadas, ruas e quintais se prestavam ao lazer cotidiano. A população era menor e, aparentemente, menos animada.

 

A polarização da infraestrutura

Cerca de 60% da população mora fora da área central, que concentra essas áreas tratadas e apropriadas pelo lazer e também os empregos.  Uma grande população é obrigada do deslocamento pendular: de manhã, da periferia que concentra a habitação para o centro que concentra o emprego e, no final do dia, de volta para a periferia. 

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Histórico da ocupação do Distrito Federal e entorno, apresentada por Gunter Kolhsdorf (Unb), na Oficina Quapá-SEL. 

O professor Benny Schvarsberg (UnB)1 defende que a Região Metropolitana de
Brasília passa por um processo de metropolização 360°, isto é, consolida-se um anel
de munícipios-dormitório ao redor do Plano Piloto. Os fluxos pendulares na direção sul são os mais intensos, seguidos daqueles nas direções oeste e norte. Por último, existem ainda fluxos pendulares na direção leste, menos expressivos. O resultado são enormes congestionamentos nos horários de pico matutinos e vespertinos.

Para Giuliana de Freitas (UnB)2, a consolidação do Plano Piloto como espaço das elites trouxe a necessidade de delimitar as áreas de ocupação popular. Assim, as cidades-satélites foram sendo criadas dispersas pelo Distrito Federal, distantes do Plano, criando pequenos núcleos urbanizados, em geral localizados junto às rodovias. Essa política criou grandes vazios urbanos, isto é, porções consideráveis de território predominantemente rural cercados por áreas urbanizadas.

As políticas de ocupação das cidades-satélites sempre visaram o atendimento das camadas mais pobres, através de programas habitacionais e lotes baratos. De tal forma que criou-se uma política habitacional para ricos e outra para pobres, deixando a classe média com poucas opções para aquisição de moradia. Poucos programas visaram atender essa demanda, como a Área Octogonal Sul e Setor Sudoeste, nos anos 1980, o bairro de Águas Claras, que surge nos anos 1990, e o bairro Noroeste, que começou a ser construído em 20093. Assim, os condomínios surgidos ao redor do Plano Piloto surgiram como solução – mesmo que irregular – para essa classe média, com terrenos mais baratos e próximos às áreas de emprego. Esse fato gerou a ocupação irregular de uma série de áreas ambientalmente sensíveis, como a Bacia Paranoá.

Silvio Soares Macedo4 aponta que atualmente são os três sistemas que estruturam a forma urbana do Distrito Federal: o Plano Piloto; o anel de loteamentos horizontais já consolidados que o cercam; e os novos eixos de expansão, sobretudo ao longo de vetores oeste, sudoeste e nordeste. Para ele, a legislação edilícia, além de ser conivente com loteamentos fechados, foi feita sem um projeto consolidado de cidade. Somando-se essa legislação permissiva com as ocupações irregulares, tem-se um planejamento frouxo que pode resultar em perdas na qualidade urbanística nas regiões periféricas.

 

Sobre o sistemas de espaços livres

Os sistemas de espaços livres do Distrito Federal são muito diferentes entre si. O Plano Piloto e os  bairros em torno do lago configuram-se como uma ilha com uma grande oferta de espaços de recreação e uso público enquanto as malhas urbanas dispersas contam com espaços semelhantes aos das periferias das cidades brasileiras. O Plano Piloto apresenta vias com número enorme de faixas e espaços generosos para a circulação de pedestres. Nas cidades-satélites há lotes quase inteiramente ocupados pelas casas, não há os gramados mantidos pelo poder público, há calçadas obstruídas e com problemas. No bairro Águas Claras, o adensamento populacional se deu com uma verticalização massiva, com vias insuficientes e calçadas por vezes inexistentes.5

Os espaços livres do Distrito Federal foram realizados categorizados, durante a Oficina Quapá-SEL, em: (1) Conservação Ambiental; (2) Parques; (3) Praças; e (4) Áreas de circulação de pedestres e veículos, associadas ao sistema viário e associados a edifícios públicos. As Unidades de Conservação Ambiental foram classificadas nos
seguintes tipos: matas nativas, parques ecológicos (Parque Olhos d’ Água, Parque
Ecológico das Águas Claras), estações ecológicas (UnB, Jardim Botânico, Águas
emendadas), resbio (reserva da biosfera do Cerrado, Parque Nacional de Brasília),
reserva particular do patrimônio natural, reserva biológica, Flona (Floresta Nacional
de Brasília) e monumento natural (Morro da Pedreira).

A subcategoria parques ecológicos faz parte tanto do grupo dos Espaços Livres de Conservação Ambiental quanto da categoria Parques.  E, de fato, a associação da conservação ambiental com a fruição pública não apenas é desejável como é necessária para a manutenção do bem natural quanto para a saúde das pessoas.

Nos últimos vinte anos, a expansão da demanda de lazer e pela preservação da vegetação impulsionou a criação de novos parques. Mas a ação mais visível desta pressão tenha sido a desocupação de terrenos à margem do Lago Paranoá. Esses terrenos públicos há muito tempo estavam incorporados aos terrenos particulares das mansões construídas às margens do Lago. Uma das atribuições da Agência de Fiscalização do Distrito Federal (AGEFIS), através do programa “Território da Gente”, foi promover a desobstrução das margens do Lago Paranoá. Desmanchar jardins e decks particulares para reincorporá-los ao patrimônio público não é simples e comum no Brasil.

Plano de desobstrucao do lago sul

Reintegração de posse dos terrenos públicos ao longo do Lago Paranoá, apresentada por Rubens Amaral (Agefis), na Oficina Quapá-SEL

 

Os parques

Os parques, na Oficina Quapá-SEL, foram divididos em: (1) recreativos, com exemplo o Parque Multifuncional da Asa Norte; (2) esportivos, como o Parque Ecológico Três Meninas e o Taguaparque; (3) de conservação, como o Parque Nacional; e (4) mistos, como o Parque da Cidade, o Jequitibá e o Saburo Onoyama. Este grupo identificou 27 parques implantados, 3 em construção e 43 não implantados.5

Espaços Livres

Na mesma época, o IBRAM – Instituto Brasília Ambiental diz que o Distrito Federal possui 72 parques ecológicos e urbanos, além de outras 22 unidades de conservação de proteção integral ou de uso sustentável.7  Destes 72 parques, 33 constam do Guia de Parques do Distrito Federal8, pois na ocasião da publicação “considerados em condições de receber visitantes que buscam espaço para realizar atividades físicas, de lazer ou simplesmente contemplação da natureza. O Ibram não especifica quais são considerados ecológicos, quais são urbanos.

 

Espaços Livres

Existe uma dificuldade para a contagem dos parques. Se um parque é criado e equipado para uso público, a partir do momento em que isto se degrada e o uso se inviabiliza, este parque deve ser contado como tal? O conceito de parque está ligado à gestão e se um espaço não é gerido como tal, deixa de ser um parque. O Parque das Copaíbas, por exemplo, está com parte de sua área invadida e sem visitação e, portanto, não deve ser contado.

O processo de criação dos parques começou com a identificação, em mapa, uma conjunto de áreas que poderiam ser conservadas. Essa proposta foi ganhando corpo e os parques foram sistematicamente sendo criados. Assim, os parques deste período no Distrito Federal foram criados visando à conservação ambiental, com verbas oriundas de termos de compensação.

Um estudo revelou que do conjunto da área dos parques, 1% é área de lazer, 58% vegetação nativa e 41% são áreas degradadas (sendo que, destas 60% podem ser recuperadas).9

P1090228BSB_BOSQUEsODUESTE_20170108 (16)Parque Bosque do Sudoeste, um parque urbano definitivamente. Conta com equipamentos esportivos e as árvores plantadas, que estão por crescer. O uso é intenso e sua criação foi celebrada na cidade. Foto: Francine Sakata, 2017. 

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Parque Olhos D´Água. Compõe-se basicamente de percurso quase perimetral que atravessa lagoas, bosques e campos de cerrado. Bancos, cercamentos e sinalização são rústicos e foram posicionados sem um projeto arquitetônico formal. Conta-se que população solicitou a criação do parque após um crime ter sido cometido na área. Tem uso muito intenso para caminhadas, tanto interna quanto externamente. Foto: Francine Sakata, 2017.

Mas, ainda que as verbas tenham sido suficientes para expandir o conjunto de parques, na prática, faltam recursos para a manutenção. Nilton Reis, presidente Instituto Brasília Ambiental em 2014, relatou que em um parque havia um carrinho para transportar pessoas com deficiência mas não havia funcionários para guiá-lo. Os recursos de compensação também são incertos e a manutenção de um parque em operação nunca cessa. Assim, em 2014, começaram a buscar modelos de gestão compartilhada nos parques que fossem replicáveis e sustentáveis a longo prazo10 . Outro problema que afeta os parques do DF são os incêndios. Quando o Cerrado era abundante, as queimadas faziam parte da dinâmica ecológica e recuperação podia demorar 100 anos. Agora que está o Cerrado está sendo extinto, as queimadas são um problema mas os parques ecológicos ou urbanos são parte da solução.     

Nos anos 2014 a 2017 a criação de novos parques não teve fôlego. Mas foi realizado um concurso nacional de arquitetura para os parques Central e Sul de Águas Claras. Ainda que tivesse recebido investimentos em sua estrutura, o Parque Águas Claras ainda não é um parque completo, com um projeto vistoso que lhe confira identidade e que eleve o status dos apartamentos de Águas Claras. Se for implantado, a classe média do Distrito Federal, que tem poder aquisitivo mais alto que a classe média do restante do país, poderá contar com mais um equipamento urbano de qualidade para usufruir. O futuro no planalto central parece sempre mais animador.

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Projeto vencedor de Lucia Porto, Sidney Linhares e equipe para o Concurso Nacional para os parques Central e Sul de Águas Claras, promovido pelo GDF em 2017.  O juri considerou que a proposta solucionava “temas importantes como: articulação urbanística, conjuntos arquitetônicos, biodiversidade de ecossistemas do cerrado, conexões dos extratos arbóreos, soluções de drenagem, permeabilidade do solo e valorização da fauna”.12

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Fontes:
1  Palestra de Benny Schvarsberg (UnB). Relatório da Oficina Quapá-SEL Brasília de 04 a 06/11/2015, elaborado por Giovanni Vespe e Tiago Regueira.
2 Palestra de Giuliana de Freitas (UnB). Relatório da Oficina Quapá-SEL Brasília de 04 a 06/11/2015, elaborado por Giovanni Vespe e Tiago Regueira.
3  Sobre o Bairro Noroeste: http://repositorio.uniceub.br/bitstream/123456789/1114/2/20682188.pdf
4  Conclusão de Silvio Soares Macedo. Relatório da Oficina Quapá-SEL Brasília de 04 a 06/11/2015, elaborado por Giovanni Vespe e Tiago Regueira.
5  Grupo de Trabalho Sistemas de Espaços Livres, formado por Camila Gomes, Caroline de Lima, Gabriela Maia, Giovanni Vespe, Giuliana Brito e Maria Alice. Relatório da Oficina Quapá-SEL Brasília de 04 a 06/11/2015, elaborado por Giovanni Vespe e Tiago Regueira.
7 Parques listados no site do IBRAM. http://www.ibram.df.gov.br/informacoes/parques.html, acessado em 14/11/2017.
Águas Claras: Parque Ecológico Águas Claras
Brasília: Parque Ecológico e de Uso Múltiplo Olhos d’Água; Parque de Uso Múltiplo da Asa Sul; Parque das Aves (dos Pássaros); Parque de Uso Múltiplo da Vila Planalto; Parque de Uso Múltiplo da Enseada Norte
Brazlândia: Parque Ecológico Veredinha
Candangolândia: Parque Ecológico e Vivencial da Candangolândia (Pioneiros)
Ceilândia: Parque Corujas; Parque Ecológico e Vivencial do Rio Descoberto; Parque Lagoinha; Parque Recreativo do Setor “O”
Gama: Parque Ecológico e Vivencial da Ponte Alta do Gama; Parque Recreativo do Gama – Prainha; Parque Urbano e Vivencial do Gama (Norte)
Guará: Parque Ecológico e Vivencial Bosque dos Eucaliptos; Parque Ecológico Ezechias Heringer; Parque Vivencial Denner
Lago Norte: Parque de Uso Múltiplo do Lago Norte; Parque de Uso Múltiplo Morro do Careca; Parque Ecológico das Garças; Parque Ecológico do Taquari
Lago Sul: Parque das Copaíbas; Parque Ecológico Bernardo Sayão (Rasgado); Parque Ecológico Dom Bosco; Parque Ecológico e Vivencial Canjerana; Parque Ecológico Garça Branca; Parque Ecológico Península Sul; Parque Vivencial do Anfiteatro Natural do Lago Sul
Núcleo Bandeirante: Parque Ecológico Córrego da Onça; Parque Ecológico Lauro Müller; Parque Ecológico Luiz Cruls; Parque Recreativo do Núcleo Bandeirante
Paranoá: Parque de Uso Múltiplo das Esculturas; Parque Ecológico da Cachoeirinha; Parque Urbano do Paranoá; Parque Vivencial dos Pinheiros
Planaltina: Parque Ecológico Vivencial Estância; Parque Ambiental Colégio Agrícola de Brasília; Parque de Uso Múltiplo Vale do Amanhecer; Parque Ecológico do DER; Parque Ecológico dos Pequizeiros; Parque Ecológico e Vivencial Cachoeira do Pipiripau; Parque Ecológico e Vivencial do Retirinho; Parque Ecológico e Vivencial Lagoa Joaquim de Medeiros; Parque Recreativo Sucupira
Recanto das Emas: Parque Ecológico e Vivencial Recanto das Emas
Riacho Fundo: Parque Ecológico e Vivencial do Riacho Fundo
Samambaia: Parque Ecológico e de Uso Múltiplo Gatumé; Parque Três Meninas
Santa Maria: Parque Recreativo de Santa Maria; Parque Ecológico do Tororó; Parque Distrital Salto do Tororó
São Sebastião: Parque São Sebastião
SCIA: Parque Urbano da Vila Estrutural
Sobradinho: Parque de Uso Múltiplo Centro de Lazer e Cultural Viva Sobradinho (Recreativo Sobradinho II); Parque Ecológico dos Jequitibás; Parque Ecológico e Vivencial de Sobradinho; Parque Recreativo e Ecológico Canela de Ema
Sudoeste/Ocotogonal: Parque de Uso Múltiplo das Sucupiras; Parque Urbano Bosque do Sudoeste
Taguatinga: Parque do Areal; Parque Lago do Cortado; Parque Ecológico Saburo Onoyama; Parque Recreativo Taguatinga; Parque Boca da Mata; Parque Ecológico Irmão Afonso Hauss
Varjão: Parque Ecológico e Vivencial da Vila Varjão
Parques urbanos com gerência especial das Administrações Regionais: Parque de Uso Múltiplo Taguaparque (RA III – Taguatinga) e Parque Dona Sarah Kubitschek (RA I – Brasília).
8 Guia de Parques do Distrito Federal.  Instituto do Meio Ambientee dos Recursos Hídricos. – Brasília, DF: IBRAM, 2013.
Disponível em: http://www.ibram.df.gov.br/images/GUIA-DE-PARQUES-PAGINAS-SOLTAS%202%201%201.pdf
9 Parques considerados implantados no âmbito do programa Programa Brasília, Cidade Parque, com verbas de compensação ambiental
http://www.ibram.df.gov.br/component/content/article/297.html
Entregues:
Parque dos Jequitibás
Parque Asa Sul
Parque Ecológico Ezechias Heringer
Parque Bosque do Sudoeste
Parque Ecológico Águas Claras
Parque do Areal
Parque Ecológico Dom Bosco
Parque Ecológico Três Meninas
Parque Olhos D’Água
Jardim Botânico de Brasília (investimentos)
Parque Ecológico Saburo Onoyama
Parque Lago do Cortado
11 Evento Parques do Brasil, promovido por Arq. Futuro em São Paulo em 07/10/2014. Painel Compensação ambiental: os compromissos com o desenvolvimento urbano, com Ricardo Birmann, presidente da Urbanizadora Paranoazinho S/A e Nilton Reis, presidente Instituto Brasília Ambiental (Ibram/DF). Em http://arqfuturo.com.br/encontros/post/623
12 Premiados no Concurso Parque de Águas Claras, DF – pranchas e ata de julgamento.
https://concursosdeprojeto.org/2017/04/26/premiados-concurso-nacional-parques-de-aguas-claras-df/, acessado em 14/11/2017.
Agradecimento: Amilcar Gramacho e Paulo Barreiros.
Texto: Francine Sakata, novembro de 2017.

Córregos renascidos: o Parque N. Sra. da Piedade de Belo Horizonte

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Foto: Francine Sakata, 2017.

O belo horizontino, a menos que seja vizinho do Parque Nossa Senhora da Piedade, provavelmente não o conhece. Mas é muito recomendável que o faça. Ele é um modelo para a recuperação de córregos, para a estruturação de parques públicos e para a melhoria da qualidade urbana. É simultaneamente um equipamento de drenagem e preservação, de lazer e de qualificação do bairro. Em 2017, podemos ainda acrescentar que também é uma referência de qualidade em manutenção.

Localizado na Região Norte, possui 59.360 m² de área cercada. Sua criação se deu em 2008 através do Programa de Recuperação Ambiental de Belo Horizonte (Drenurbs)¹. A participação da população local foi determinante para a construção do parque que se deu a partir da criação de uma comissão representada por moradores, alunos e professores da Escola Municipal Hélio Pellegrino, em 1999². Esse grupo buscou a parceria com o Projeto Manuelzão, para a implementação das melhorias. O Projeto Manuelzão é uma iniciativa nascida em 1997 de professores da Faculdade de Medicina da UFMG, a partir “da percepção de que a saúde não é apenas uma questão médica”. Está no escopo do Projeto Manuelzão lutar por melhorias nas condições ambientais para promover qualidade de vida e a bacia hidrográfica do rio das Velhas foi escolhida como foco de atuação³. Foram então construídas parcerias com os municípios e com o governo do estado.

As obras no córrego da Av. Nossa Senhora da Piedade começaram no início de 2007 e foram concluídas em maio de 2008. A prefeitura havia previsto para esta sub-bacia intervenções no sistema viário, na drenagem pluvial e no esgotamento sanitário, e a implantação de um parque com espelhos d’água, portaria, administração, recreação infantil, pista de skate e equipamentos de ginástica. O poder público realizou 160 desapropriações de terrenos e remoção das famílias, no valor de R$ 8 milhões, e a obra do parque propriamente dita, na qual investiu R$ 14,8 milhões, todos os recursos de uma parceria da prefeitura com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)¹.

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Córrego da Av. Nossa Senhora da Piedade antes de 2007. Foto: Maria Jose Zeferino/ site da Prefeitura de Belo Horizonte.

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As primeiras iniciativas consistiram em medidas para recuperação e preservação do córrego²:

  • tratamento de fundo de vale e contenção de margens com gabião;
  • recuperação de nascentes através da limpeza e plantio de flora nativa;
  • implantação de interceptores de esgoto e complementação da rede coletora com introdução de tubulação lateral para coleta de esgoto, que é enviado para as áreas de tratamento;
  • construção do espelho d’água, que se torna uma bacia de controle de cheias;
  • tratamento de focos erosivos, com o uso de gabião e plantio de vegetação e a remodelação do terreno.

O desenvolvimento do projeto coube à B&L Arquitetura, escritório de Eduardo Beggiato e Edwiges Leal4. Este grupo tem como meta elaborar soluções que sejam duráveis e tecnicamente corretas, sem vaidades projetuais personalistas. Entretanto, no universo das cidades brasileiras, os equipamentos projetados para o parque se destacam mesmo assim porque são raras as obras projeto e execução caprichados.

O desenho do edifício que reúne portão, portaria e salão para reuniões de moradores é tem linhas arquitetônicas contemporâneas. O espelho d´água com quedas para conter a vazante e algumas placas de piso que permitem chegar perto da água também chama a atenção. O caminho que vai-e-volta em torno da água é simples e permite o acesso às quadras e ao skate e a contemplação do conjunto todo.

O trecho do bairro em que se insere, antes conhecido como “uma comunidade” não tem nenhum aspecto de precariedade.  Este parque é prova que a população organizada pode fazer muita diferença.

Endereço: Rua Rubens de Souza Pimentel, 750, bairro Aarão Reis, Belo Horizonte/ MG.

Fontes:
1 Prefeitura de Belo Horizonte
portalpbh.pbh.gov.br/pbh/ecp/comunidade.do, acesso em 15/11/2017
Rogéria Coutinho Santos. ESTUDO PRELIMINAR SOBRE O PROJETO DE CONSTRUÇÃO DO PARQUE NOSSA SENHORA DA PIEDADE.  Trabalho de Conclusão do Curso de Ciências Biológicas do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Belo Horizonte, 2010.
http://www3.izabelahendrix.edu.br/ojs/index.php/aic/article/view/529, acesso em 21/11/2017.
3 Projeto Manuezão
https://manuelzaovaiaescola.wordpress.com/o-projeto-manuelzao/
http://www.manuelzao.ufmg.br/sobre_o_projeto/posicionamento/revitalizacao
Acesso em 15/11/2017
4 Site B&L Arquitetura
http://www.belarq.com.br/?portfolio=parque-nossa-senhora-da-piedade
Agradecimentos: Stael de Alvarenga Costa
Texto: Francine Sakata, novembro de 2017

 

Trilhas de longa distância para conhecer e preservar a natureza

A história das trilhas começou nos Estados Unidos. Em 1921, Benton Mackaye teve a ideia de uma grande trilha pela costa leste, conectando fazendas e florestas, e escreveu o plano da Trilha Apalache. MacKaye acreditava que aquelas paisagens naturais tão próximas de grandes cidades estavam condenadas a desaparecer. Sua ideia ganhou adeptos, The New York Evening Post fez uma manchete de página inteira “A Great Trail from Maine to Georgia!” e, com o esforço de muitos, a trilha foi sendo construída. Hoje ela conta com 3.500 km e há planos de que seja estendida ao norte até o Canadá e ao sul até a Flórida.

Os Estados Unidos então se tornaram entusiastas das trilhas e elas hoje somam mais de 80 mil km. Steve Elkinton, que trabalhou no National Trails System de 1989 a 2014, diz que os Parques Nacionais são as jóias da coroa e as trilhas são o colar. Pedro da Cunha e Menezes, do ICMBio, explica que as trilhas funcionam como corredores para fauna, por isso que a maioria tem o sentido norte-sul, que é o das correntes migratórias. E, ao mesmo tempo que são instrumento para preservação da biodiversidade, são lugares das pessoas conhecerem e se apaixonarem pela natureza. A caminhada, as descobertas, a superação física, tudo isto cria uma conexão do indivíduo com o meio ambiente que é muito positiva e eficiente para a ‘causa’.

As trilhas se espalharam pelo mundo. A Europa conta com várias. Na América do Sul, é considera-se que a primeira trilha de longa duração seja Greater Patagonian Trail. É um conjunto de trilhas na Patagônia entre o Chile e Argentina e juntas formam um percurso de 1.311 km percorrido em 2014 pelo alemão Jan Dudec.

O ICMBio e Pedro da Cunha e Menezes estão tentando juntar esforços no Brasil implantar uma trilhas de longa duração nacionais: Oiapoque x Chuí, Caminho do Peabiru, Caminho dos Goyazes e Estrada Real e de diversas Trilhas de longo Curso Regionais. Mas ele enfatiza que o importante mesmo é que as grandes trilhas sejam compostas por trilhas menores, com identidades próprias, que possam ser percorridas em poucos dias, já que poucos farão os percursos completos. Estas trilhas menores devem ter nomes, ter começo-e-fim e devem fazer sentido para as economias locais, como um produto turístico. Estas trilhas menores devem ser pensadas de forma que possam ser unidas no futuro. A Transcarioca foi a primeira realização.

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Trilha Transcarioca. http://transcarioca.wikiparques.org/mapa/

A ideia é excelente. As trilhas são instrumentos de conservação da biodiversidade, de educação ambiental, contemplação e lazer, superação física e, de quebra, ainda são fonte de geração de emprego e de renda.

Veja também:

http://nationaltrailsguide.com/centennial-celebration-trails-parks/

http://www.oeco.org.br/colunas/pedro-da-cunha-e-menezes/o-brasil-no-caminho-das-trilhas-de-longo-curso/

http://www.oeco.org.br/colunas/pedro-da-cunha-e-menezes/o-aprendizado-brasileiro-das-trilhas-de-longo-curso-no-mundo/

Texto: Francine Sakata, 08/11/2017

 

Vira praça, vira parque

Texto: Matheus Casimiro

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Nos últimos três anos, na cidade de São Paulo, houve um aumento de solicitações para o enquadramento de praças públicas como parques públicos. Essas demandas foram requeridas pelas mais diversas origens, de entidades civis à Câmara Municipal. Houve casos de áreas verdes emblemáticas, como a Praça da Sé ou a Roosevelt, que não foram adiante, e casos que foram levados à cabo, como o novo Parque Tatuapé e a Praça do Pôr do Sol.

A primeira experiência tida como bem sucedida foi a praça do antigo Lions Clube Penha, com 19.128 m², que se tornou o “Parque Tatuapé” pelo Decreto de Nº 55.860, de 20 de janeiro de 2015. Essa área se localiza próxima ao parque Piqueri, na subprefeitura da Mooca, com topografia relativamente plana e esparsos exemplares arbóreos e arbustivos. Esse local estava praticamente abandonado com pouca apropriação pública.

 

Parque Tatuapé. Fotos: Arthur Cabral e Fabíola Trindade, 2013/2014.

O segundo exemplo de praça convertida em parque é a praça Coronel Custódio Fernandes Pinheiro, mais conhecida como a Praça do Por do Sol, transformada legalmente em uma área verde especial denominada “Parque do Pôr do Sol” (Decreto de Nº 56.333, de 13 de agosto de 2015). Localizada no Alto de Pinheiros, sua metragem é de 28. 358 m², e tem como características principais o relevo acentuado, com grandes desníveis entre ruas que o confrontam; a interação entre seu espaço e a rua sem qualquer cercamento em seu perímetro; a ausência de bosques consolidados, apenas árvores isoladas, gramados e poucos maciços arbustivos. Ao contrário do “Parque Tatuapé”, sua apropriação coletiva é intensa com dias de lotação.

Parque do Pôr do Sol. Fotos: Matheus Casimiro, 22/09/2014.

Ambos os casos apresentam conformação urbana semelhante, pois são áreas de pequena dimensão, sem presença de elementos naturais de relevância e com equipamentos já com uso público estabelecido. A questão que se coloca é: o que motivou a demanda de transformação dessas áreas em parques públicos?

As praças e os parques são diferentes categorias de áreas dentro do sistema de espaços livres da cidade. Apesar de serem áreas públicas que apresentam algumas semelhanças entre si, têm discrepantes conceituações, feições e destinações. Não são diferentes apenas por sua origem e história mas por oferecerem distintas formas de apropriação. O contraste entre elas vai além de características como dimensão e a presença ou não de cercamento. São morfologias urbanas com atributos distintos, para não dizer antagônicos. O entendimento dessas diferenças e semelhanças parece ser um dos primeiros estágios necessários para elucidar a questão.

As praças são espaços integrados à circulação do espaço em que se inserem. Inicialmente criadas para dar suporte a atividades culturais, de comércio, e a discursos políticos, hoje são áreas livres para diferentes usos de lazer e como extensão das ruas e calçadas. Podem ser áreas arborizadas ou secas, mas não necessariamente precisam compor uma função ambiental para o município, embora isto seja desejável. O parque, por sua vez, é a evolução do jardim na cidade contemporânea, sendo o artefato da natureza no ambiente citadino. Por esse motivo, tem predominância de recursos naturais, e propicia tanto o lazer ativo – como esportes e ciclovias – como atividades passivas – estares contemplativos e mirantes. Na contemporaneidade, parques são compostos a partir de uma função ecológica, tornado-se prioritária sua contribuição com a drenagem urbana (piso permeável), preservação da rede hídrica, manutenção do micro-clima e diminuição das ilhas de calor (presença de árvores e espécies arbustivas).

A definição de parque ou praça aponta para distintas formas de planejar, implantar e gerir cada área. A confusão conceitual pode atrapalhar seu provimento e manutenção, podendo gerar espaços públicos mais desfuncionais, desarticulados e degradados na cidade. Pela imprecisão e falta de clareza na definição de cada um desses espaços há demandas e solicitações de criação de parques e parques, por diferentes origens, sem critérios específicos que norteiem as motivações de criação de cada um deles.

É necessário ponderar essas diferenças para subsidiar melhores condições quanto a qualidade de uso público. A demanda para a transformação dessas áreas provavelmente teve origem na expectativa de melhorias relacionadas a sua gestão, pois, entre praças e parques municipais há formas de gestão distintas.

As praças de São Paulo são áreas livres municipais de uso comum sob responsabilidade, em geral, embora não todas o sejam, de gestão e manutenção das Subprefeituras. Ao contrário dos parques públicos urbanos, as praças não possuem horário de funcionamento e, portanto, não possuem nenhum tipo de fechamento, cercamento ou cerceamento ao acesso público. As praças de São Paulo se caracterizam como espaços com programa de usos, em geral, mais abertos que o dos parques municipais. São áreas voltadas ao encontro e à vivência pública em qualquer horário do dia ou da noite, de acesso irrestrito. Enquanto espaços livres e, portanto, não construídos, a grande maioria das praças não possui sistema de instalações hidráulicas, sanitários ou demais edificações.

Por outro lado, os parques municipais paulistanos estão sob responsabilidade da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente. Administrados por um Conselho Gestor com poder deliberativo, os parques possuem horários de funcionamento e regulamentos de uso definidos em função do programa de atividades previstas. Com exceção dos parques lineares (embora alguns também o sejam), os parques são cercados e possuem horários para abertura e para fechamento. Os parques municipais de São Paulo possuem contratos para segurança, em geral realizada por equipes terceirizadas, e são dotados de equipamentos como banheiros e bebedouros.

As diferenças quanto a manutenção e segurança desses espaços podem ser as principais motivadoras para a conversão de praças e parques. Os solicitantes entenderem que, com previsão legal de parques, estas áreas estariam municiadas de melhores condições de gestão. Muitos representantes das comunidades são da opinião que os parques municipais têm gestão mais eficiente que as praças por terem limitação de acesso, contratos de manejo e segurança exclusivos e a contratação um administrador com criação de um respectivo conselho gestor.

Com isso, faz-se necessário a retomada da discussão acerca da gestão das praças. Recentemente foi instaurada a Lei de Nº 16.212, de 10 de junho de 2015, que “Dispõe sobre a gestão participativa das praças do município de São Paulo“. Com ela, abre-se a possibilidade de haver uma inflexão sobre a mudança da política de criação e gestão dos espaços verdes, criando uma coerência quanto às características e aos usos condizentes com cada um dos espaços do Sistema de Áreas Verdes da cidade. Esse é um bom início para a discussão de uma carente reflexão acerca das praças públicas municipais.


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Referências bibliográficas:

CHADWICK, George F. The park and the town . Michigan, ,Architectural Press, 1966.

BARTALINI, Vladimir.  Parques Públicos Municipais de São Paulo – A ação da municipalidade no provimento de áreas verdes de recreação. Tese de doutorado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. São Paulo, 1999.

KLIASS, Rosa G. A. A evolução dos Parques Urbanos na Cidade de São Paulo. Dissertação de Mestrado. Orientador: Lucio Grinover. São Paulo: FAUUSP, 1989.

SALDANHA, Nelson. O Jardim e a Praça . São Paulo, Edusp, 1986.

SEGAWA, Hugo. Ao amor do Público: Jardins no Brasil. São Paulo, Studio Nobel / FAPESP, 1996.

SUN, Alex. Projeto da Praça: Convívio e Exclusão no Espaço Público. 2ª Edição, Editora Senac, São Paulo, 2011.

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Matheus Casimiro

Matheus Casimiro é arquiteto e urbanista e foi diretor de projetos no Depave. Entregou em 2017, sua dissertação de mestrado sobre parques em São Paulo.