Arquivo da categoria: arquitetura paisagística

Parques de Porto Alegre

O município de Porto Alegre, segundo a Secretaria Municipal do Meio Ambiente e da Sustentabilidade (SMAMS)¹, conta com 8 parques urbanos, 637 praças urbanizadas e 4 unidades de conservação. Até 2017, esta secretaria era responsável pela implantação e manutenção das praças e parques de Porto Alegre. A partir deste ano, a manutenção das praças foi repassada à Secretaria de Obras e dos parques foi mantida com a SMAMS.
No entendimento dos técnicos da secretaria, os espaços públicos das praças e parques são destinados ao lazer, ao esporte, à contemplação e interação social; contribuem para o equilíbrio ambiental das cidades; são estruturadores do tecido urbano; e neles, as edificações devem ser evitadas ou minimizadas.
Para a prefeitura, os parques são áreas verdes com área superior a 100.000m², ainda que haja parques com área menor. São áreas com abrangência urbana, ao contrário das praças que são consideradas de abrangência local, e contam com administração própria – com sede e edificações de apoio. Assim, cada parque tem uma equipe própria de manutenção. Uma característica dos parques de Porto Alegre é que não são cercados, com exceção do Parque Germânia. A questão dos cercamentos dos parques é pauta de discussões na cidade.

Algumas unidades de preservação são áreas controladas e não tem acesso público, como o Parque Natural Municipal Morro do Osso, o Parque Estadual Delta do Jacuí e Reserva Biológica do Lami José Lutzenberger.²

Os espaços livres de uso público no município têm surgido pricipalmente por conta da obrigação legal do empreendedor de destinar áreas públicas por ocasião do parcelamento do solo. O projeto deste espaço deve seguir as diretrizes da SMAMS e tem sido, em geral, executado pelo empreendedor. As áreas doadas ao município são mais compatíveis, pelo porte, com praças do que com parques. Os Termos de Compensação Ambiental não foram utilizados para construir ou equipar parques inteiros. Em Porto Alegre, até 2018, as praças não perderam protagonismo para os parques.

O trecho da cidade que tem recebido mais atenção e investimentos é a Orla do Rio (ou Lago) Guaíba, desde a área central até o Museu Yberê Camargo, ao sul. Há uma sequência de praças que foram revitalizadas pela prefeitura, algumas incluídas no pacote de obras para a Copa do Mundo de 2014. Será inaugurado, em 2018, um calçadão em torno da Usina do Gasômetro, projetado pela equipe do arquiteto Jaime Lerner, com terminal turístico para barcos de passeio, restaurante, bares, playground, academias ao ar livre, quadras esportivas, caminhos com arquibancadas para contemplação do pôr-do-sol, decks que se projetam sobre a água, ciclovia, jardins aquáticos, postes de iluminação altos e vistosos. Este trecho já possuía intensa apropriação para o passeio e a contemplação mas não possuía um tratamento sofisticado.

FORMA URBANA E SITEMA DE ESPAÇOS LIVRES

Parque Urbano da Orla do Guaíba, 1a fase, com 1.320m de extensão, entre o Centro Cultural Usina do Gasômetro e a Rótula das Cuias (2018), projeto do urbanista Jaime Lerner. Aos domingos, parte da Avenida Edvaldo Pereira Paiva (Beira-Rio) fica bloqueada para automóveis. Foto: Fábio Mariz Gonçalves, 2018. 

Junto à orla também está o Parque Marinha do Brasil e o Parque Maurício Sirotski, este último com apropriação eventual, em eventos itinerantes. O restante da Orla do Guaíba no município segue com vários graus de tratamento e de apropriação: há trechos com acesso público; trechos com o acesso pelos clubes náuticos; e trechos sem acesso público. Em frente ao Museu Yberê Camargo, uma faixa estreita tem sido intensamente utilizada (2018) para a contemplação do pôr-do-sol. Mais ao sul, no bairro Guarujá, há uma praia de areia e o calçadão de Ipanema, também com muito uso ainda que não muito largo. A praia de Ipanema até os anos 1960 era balneável, situação que se modificou com a expansão da cidade.

Entre os novos parques, o Parque Gabriel Knijnik (2004) era o sítio do engenheiro que dá nome ao parque, doador da área para que fosse transformada em parque municipal. O acesso é difícil. Possui pomar, uma área de banhado e uma grande área de preservação. Foram construídos sanitários, coreto, playground, churrasqueiras, duas quadras de futebol, cancha de bocha, passeios e estacionamento. Do alto do mirante, atualmente fechado, era possível avistar a área rural e a área urbana de Porto Alegre.

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Parque Gabriel Knijnik (2004), sítio particular doado em testamento à prefeitura. Fotos: Sérgio Louruz_PMPA, 2010.

O Parque Germânia (2006) foi planejado e construído por uma construtora e está circundado por empreendimentos imobiliários. Ao servir como espaço de lazer para os moradores, valoriza o entorno. A ideia era justamente esta, qualificar este setor da cidade para a moradia das camadas de alta renda que resistiam em mudar das áreas tradicionais da elite na cidade, como daquela em torno do Parque Moinhos de Vento. É um parque completo, com lago, gramados, administração, quadras de tênis, vôlei, basquete e futebol de salão, cancha de bocha, playgrounds, aparelhos de ginástica, caminhos para corrida ou caminhada, jardins para descanso e contemplação da natureza e uma área de preservação. Foi anunciado por seus idealizadores como sendo o primeiro parque cercado da cidade, o que não é necessariamente uma qualidade.
Em um bairro de população de rendas mais baixas, o Parque Chico Mendes e a Praça México, quase vizinhos, são desafios para a gestão municipal. O primeiro tem problemas com invasões, tráfico e insegurança e a segunda foi bem apropriada e recebida pela população.

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Parque Germânia (2016), com 150.000m². Segundo a construtora Goldsztein S/A, que concebeu o bairro Jardim Europa, o parque foi construído por ela e doado a Porto Alegre. Fotos: Silvio Macedo, 2010.

Os parquesTabela de Parques - Porto Alegre

Parques na malha urbana - Porto Alegre

Mapa de parques e rendas - Porto Alegre

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Fontes:
1 A Oficina Quapá SEL de Porto Alegre contou com palestra e participação de Marcos B. Profes e Sergio Tomasini, da SMAMS. SAKATA, Francine; DONOSO, Veronica; REIS, Juliana. Relatório Oficina Quapá-SEL Porto Alegre – 4 a 6 de abril de 2018, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. FAUUSP, 2018.
2 Secretaria do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Smams) do governo do Estado do Rio Grande do Sul: Disponível em: http://www.sema.rs.gov.br/unidades-de-conservacao-2016-10
Texto: Francine Sakata, 2018.
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Pier C, uma ilha-parque com vista para Manhattan

Nas cidades ricas do mundo, muitos parques impressionantes foram feitos nos anos 2000, na linha dos primeiros parques contemporâneos de Barcelona e Paris. Ainda que seja muito comentado o caso do High Line Park de Nova York, construído sobre uma linha férrea elevada, as obras de paisagismo mais vistosas dos anos 2000 são, sem dúvida, os waterfronts.

Em muitas grandes cidades, as estruturas portuárias ficaram obsoletas e vem sendo requalificadas para uso urbano. Em Nova York, toda a orla do rio Hudson, que nunca foi muito apropriada pela população, vai virando uma sequencia de espaços de lazer e de apartamentos valorizados para o mercado imobiliário. Tanto do lado de Manhattan, quando do lado do Brooklin, há waterfronts.

Do outro lado, a pequena Hoboken, já no estado de Nova Jersey, entrou no movimento e, assim, deixa de ser apenas a cidade do “Cake Boss” da TV. Em 20 minutos de barco ou de metrô se chega a estação do World Trade Center. Hoboken não teria porque não ser um local valorizado para a moradia.

Aberto em 2010, o projeto do Pier C Park é de Michael Van Valkenburgh Associates Inc e é muito sofisticado. Nas bordas há decks e muitos bancos para apreciar a vista. O gradil é de inox e tem um desenho único. Adultos ainda podem pescar e há um tanque para limpar os peixes mas, em nossa visita, não pudemos presenciar este uso. E, no projeto de plantio, foi feito um esforço para que as plantas pudessem abrigar ninhos de aves, o que também não ficou claro para nós que aconteça.

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A parte interna foi trabalhada com barreiras e morrinhos e os brinquedos estão ‘escondidos’ em recantos. A sequencia de surpresas faz o espaço parecer maior. O playground é dividido em uma área pré-escolar e uma área de jogo em idade escolar. Há estruturas para escalar e esconder, tanque de areia, jogos de água, planos inclinados escaláveis, brinquedos. Há ainda um percurso contínuo para bicicletinhas.

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Texto e fotos: Francine Sakata. Imagens de novembro de 2014.

Foto aérea e planta: http://www.mvvainc.com

 

Referências:

http://www.mvvainc.com/project.php?id=11

http://www.gsd.harvard.edu/project/pier-c-park/

Parque Lina e Paulo Raia

Texto e fotos: Matheus Casimiro, 2016.

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Este parque de bairro foi implantado em 1980 na região Sul de São Paulo, na Subprefeitura Jabaquara, com a denominação Parque Conceição. É um importante parque municipal, que apesar de pequena dimensão, apresenta características irrefutáveis de um jardim público urbano. Com seus 15 mil m², este exemplo coloca em xeque diversas classificações do Sistema de Áreas Verdes, que tomam como único pressuposto de divisão das tipologias dos espaços verdes, a dimensão de suas áreas.

Ele foi implantado na ocasião de um abrangente Plano de Urbanização, liderada pela antiga EMURB, no bairro Conceição, para a implantação da estação de metrô homônima, da linha Azul. Seu terreno foi preservado pra usufruto público já em 1974, visando a preservação de importantes indivíduos arbóreos já consolidados no sítio à época. Seu projeto e obra foram realizados pelo Departamento de Parques e Áreas Verdes.

É um dos menores parques municipais da cidade até a atualidade, tendo apenas 15 mil m² de área. Sua pequena dimensão o coloca em uma posição de destaque entre os demais parques implantados, sendo semelhante a metragem de outras tipologias do Sistema de Áreas Verdes Municipal. Seu formato do sítio é nucleado e apresenta, além de vistosa vegetação, três instalações prediais de propriedades contíguas das antigas chácaras, que foram adaptadas para receber atividades de cunho artístico.

O seu acesso principal é pela Rua Volkswagen, s/n, havendo outra entrada em fase oposta de seu perímetro, em rua de âmbito local. A maioria de seus limites, contudo, é constituída por divisas de outros lotes, sendo, portanto, de muros com propriedades particulares. Em seu interior, foram criadas pistas de caminhada, áreas de estar, 02 núcleos de playground, equipamentos para idosos, além de infraestruturas de sanitários e bebedouros. Os edifícios abrigam a Escola Municipal de Iniciação Artística, mantida pela Secretaria de Cultura, alem de haver uma pequena administração.

Chama a atenção do parque um pequeno orquidário improvisado em um local de pouca circulação, além de um extenso corredor natural para passagem de águas pluviais. Em um ponto próximo ao nível do viário, há um grotão que permite o percolamento de águas provenientes da chuva de grande parte do seu entorno, que transformam parte do parque em uma linha hídrica natural de drenagem de seu impermeável bairro. A vegetacão em suas margens denunciam o solo úmido, sendo implantado também nesse trecho, uma charmosa ponte metálica ligando dois pontos opostos mais altos do parque, permitindo o cruzamento de pedestres em percurso seco independente do escoamento das águas nessa corrente de água intermitente.

O parque apesar de pequeno, devido a vegetação de grande porte, insere o usuário de modo pleno em ambiente natural. As copas cobrem a abobada do céu e o plano do horizonte, permitindo inclusive, que em certos pontos, chegue a ter perda de referência da localização do usuário. Sua vegetação é composta por bosque de mata atlântica, com exuberantes espécies arbóreas e arbustivas, com composições ornamentais de cenários naturais e antrópicos.

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Ponte metálica. 

Sua conservação é boa. Foram empregados materiais nos equipamentos comuns à sua época de implantação e reconhecidamente duráveis: tijolos aparentes, concreto, pedras e cimentados. Seus percursos são em alguns pontos de pedra portuguesa, outros de pedriscos, outros mesmo cimentados. A calçada perceptivelmente reformada há pouco tempo é também de pedra portuguesa. É interessante notar que o desenho de seus caminhos internos e estares são ortogonais, incomum a tradição dos parques feitos por DEPAVE.

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Destaque aos pisos dos percursos internos. 

Na ocasião da visita, em dia de semana entre as 10h e 12h, observou-se um heterogêneo público que o utilizava: pais e crianças da escola artística, crianças com babás no parquinho, empregados descansando em hora do almoço, idosos papeando, jovens passeando com cachorro ou lendo em um banco sob a sombra de uma árvore. Todos os para ciclos estavam cheios de bicicletas estacionadas denunciando a forma como vários usuários ali achegaram.

Esse é um importante parque municipal, que apesar de pequena dimensão, apresenta características irrefutáveis de um jardim público urbano. Esse exemplo traz luz às reflexões e métodos que tentam categorizar as áreas verdes, contradizendo as afirmações que tipificam parques apenas nos casos de grandes dimensões. O Parque Lina e Paulo Raia com seus 15 mil m² coloca em xeque diversas dessas classificações do Sistema de Áreas Verdes, que tomam como único pressuposto de divisão das tipologias dos espaços verdes, a dimensão de suas áreas. Esse é um exemplo de parque público, de abrangência local, que cumpre excepcionalmente a sua função de bairro, e traz um refúgio verde em meio a concretada região do Jabaquara.

 

Córregos renascidos: o Parque N. Sra. da Piedade de Belo Horizonte

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Foto: Francine Sakata, 2017.

O belo horizontino, a menos que seja vizinho do Parque Nossa Senhora da Piedade, provavelmente não o conhece. Mas é muito recomendável que o faça. Ele é um modelo para a recuperação de córregos, para a estruturação de parques públicos e para a melhoria da qualidade urbana. É simultaneamente um equipamento de drenagem e preservação, de lazer e de qualificação do bairro. Em 2017, podemos ainda acrescentar que também é uma referência de qualidade em manutenção.

Localizado na Região Norte, possui 59.360 m² de área cercada. Sua criação se deu em 2008 através do Programa de Recuperação Ambiental de Belo Horizonte (Drenurbs)¹. A participação da população local foi determinante para a construção do parque que se deu a partir da criação de uma comissão representada por moradores, alunos e professores da Escola Municipal Hélio Pellegrino, em 1999². Esse grupo buscou a parceria com o Projeto Manuelzão, para a implementação das melhorias. O Projeto Manuelzão é uma iniciativa nascida em 1997 de professores da Faculdade de Medicina da UFMG, a partir “da percepção de que a saúde não é apenas uma questão médica”. Está no escopo do Projeto Manuelzão lutar por melhorias nas condições ambientais para promover qualidade de vida e a bacia hidrográfica do rio das Velhas foi escolhida como foco de atuação³. Foram então construídas parcerias com os municípios e com o governo do estado.

As obras no córrego da Av. Nossa Senhora da Piedade começaram no início de 2007 e foram concluídas em maio de 2008. A prefeitura havia previsto para esta sub-bacia intervenções no sistema viário, na drenagem pluvial e no esgotamento sanitário, e a implantação de um parque com espelhos d’água, portaria, administração, recreação infantil, pista de skate e equipamentos de ginástica. O poder público realizou 160 desapropriações de terrenos e remoção das famílias, no valor de R$ 8 milhões, e a obra do parque propriamente dita, na qual investiu R$ 14,8 milhões, todos os recursos de uma parceria da prefeitura com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)¹.

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Córrego da Av. Nossa Senhora da Piedade antes de 2007. Foto: Maria Jose Zeferino/ site da Prefeitura de Belo Horizonte.

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As primeiras iniciativas consistiram em medidas para recuperação e preservação do córrego²:

  • tratamento de fundo de vale e contenção de margens com gabião;
  • recuperação de nascentes através da limpeza e plantio de flora nativa;
  • implantação de interceptores de esgoto e complementação da rede coletora com introdução de tubulação lateral para coleta de esgoto, que é enviado para as áreas de tratamento;
  • construção do espelho d’água, que se torna uma bacia de controle de cheias;
  • tratamento de focos erosivos, com o uso de gabião e plantio de vegetação e a remodelação do terreno.

O desenvolvimento do projeto coube à B&L Arquitetura, escritório de Eduardo Beggiato e Edwiges Leal4. Este grupo tem como meta elaborar soluções que sejam duráveis e tecnicamente corretas, sem vaidades projetuais personalistas. Entretanto, no universo das cidades brasileiras, os equipamentos projetados para o parque se destacam mesmo assim porque são raras as obras projeto e execução caprichados.

O desenho do edifício que reúne portão, portaria e salão para reuniões de moradores é tem linhas arquitetônicas contemporâneas. O espelho d´água com quedas para conter a vazante e algumas placas de piso que permitem chegar perto da água também chama a atenção. O caminho que vai-e-volta em torno da água é simples e permite o acesso às quadras e ao skate e a contemplação do conjunto todo.

O trecho do bairro em que se insere, antes conhecido como “uma comunidade” não tem nenhum aspecto de precariedade.  Este parque é prova que a população organizada pode fazer muita diferença.

Endereço: Rua Rubens de Souza Pimentel, 750, bairro Aarão Reis, Belo Horizonte/ MG.

Fontes:
1 Prefeitura de Belo Horizonte
portalpbh.pbh.gov.br/pbh/ecp/comunidade.do, acesso em 15/11/2017
Rogéria Coutinho Santos. ESTUDO PRELIMINAR SOBRE O PROJETO DE CONSTRUÇÃO DO PARQUE NOSSA SENHORA DA PIEDADE.  Trabalho de Conclusão do Curso de Ciências Biológicas do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Belo Horizonte, 2010.
http://www3.izabelahendrix.edu.br/ojs/index.php/aic/article/view/529, acesso em 21/11/2017.
3 Projeto Manuezão
https://manuelzaovaiaescola.wordpress.com/o-projeto-manuelzao/
http://www.manuelzao.ufmg.br/sobre_o_projeto/posicionamento/revitalizacao
Acesso em 15/11/2017
4 Site B&L Arquitetura
http://www.belarq.com.br/?portfolio=parque-nossa-senhora-da-piedade
Agradecimentos: Stael de Alvarenga Costa
Texto: Francine Sakata, novembro de 2017

 

O ofício do arquiteto paisagista na Alemanha

Por: Laís Flores

Estou completando um ano no escritório onde trabalho como arquiteta paisagista, e achei que era uma boa hora de fazer um post sobre o assunto. Eu sou formada em arquitetura e urbanismo e trabalhei um pouco com paisagismo no Brasil. Como é minha área preferida da arquitetura, resolvi me focar nisso por aqui.

E após um ano de experiência na área na Alemanha, já dá pra fazer um post sobre as diferenças – que são muitas – dessa área aqui e no Brasil. Vou dividir o post em quatro partes pra organizar melhor. Alguns pontos valem não só para paisagismo, mas também para arquitetura.

  1. Incumbências e responsabilidades do arquiteto paisagista na Alemanha

A primeira grande diferença é que aqui arquitetura da paisagem – Landschaftsarchitektur – é uma área separada da arquitetura. O curso universitário de paisagismo é de 5 anos, como o de arquitetura, e só pessoas formadas nisso é que fazem projetos para espaços livres. Arquitetos nunca projetam espaços livres.

Uma outra diferença importante são os tipos de projetos mais comuns. No Brasil eu fiz muitos jardins, jardim de casas ou mesmo de sacadas. Eram projetos pequenos para pessoas que podiam pagar um arquiteto. Ou ainda jardins de edifícios comerciais. Fizemos também alguns projetos públicos, alguns parques e praças. Mas aqui os projetos de paisagismo são quase todos para espaços públicos. É que basicamente aqui para qualquer espaço livre se contrata um paisagista. Mesmo que seja uma área pequena, mesmo que nem dê para fazer muita coisa ali, sempre se contrata um arquiteto paisagista, porque é ele o responsável por projetar espaços livres e ninguém mais. E os tipos de projeto são bem variados: a gente faz muitas escolas (todas as escolas tem um projeto de paisagismo), áreas livres de edifícios de apartamentos (que são áreas semi-públicas, já que são sempre abertas) e praças. Um tipo de projeto interessante que é responsabilidade de paisagistas são áreas esportivas, quaisquer que sejam. No escritório eu já participei de projetos de campos de futebol, um percurso de BMX e um percurso de Biathlon (ski + tiro ao alvo). Projetos de jardins particulares são raríssimos. Isso certamente porque os alemães gostam de jardinagem e gostam de ter um jardim. Poucos pensariam em contratar um paisagista para fazer o jardim de casa porque preferem fazer isso eles mesmos.

E uma coisa particular do escritório em que eu trabalho é que a gente também faz vários projetos de planejamento da paisagem, que são projetos em escala maior. A maior parte dos escritórios de paisagismo trabalham só com projetos de lugares (Objektplanung) mas alguns fazem também planejamento da paisagem. São por exemplo a parte ambiental de projetos de zoneamento (Bebauungsplan, ou B-Plan), onde se decide coisas como a porcentagem de cobertura arbórea de uma rua ou de uma área verde em planejamento, localização de parquinhos, ou áreas esportivas, ou ainda bacias de retenção de águas pluvias, entre outras infraestruturas urbanas.

  1. Burocracias

Essa é a parte boa. A parte ruim desse trabalho aqui é que ele é muuuuuuuito mais burocrático que no Brasil. Isso eu já falei no post sobre Arquitetura na Alemanha (porque vale pra arquitetura e paisagismo), aqui pra cada coisa que você faz tem mil burocracias que vão junto: formulário x, lista y, texto não sei qual, etcetc. Tem uma coisa que aqui se faz para cada projeto chamava Leistungsverzeichnis, abreviado LV. É uma descrição nos mí-ni-mos-de-ta-lhes de tudo que vai no projeto. Tudo. Nos mínimos detalhes. Quando eu digo mínimos detalhes, vc tá pensando “ah, ok, detalhes, tal, tudo bem”. Mas é muito pior do que você está imaginando. Por exemplo, digamos uma parede. Só isso, uma parede. O texto do LV seria algo desse tipo:

“Parede de tijolos, DIN EN 1996, parede externa, 15m²

Largura da parede 24cm
Tijolos de arenito calcário, DIN EN 771-2 em conexão com DIN V 20000-402 ou DIN V 106, KS L-R, classe de resistência 12, Densidade 1,6,
Argamassa MG II a DIN V 18580 ou DIN V 20000-412 em conexão com DIN EN 998-2.”

(os códigos loucos são as normas que especificam detalhes do material da parede, resistência, coisas assim)

Daí se na parede tem por exemplo um vão para uma janela ou uma porta, isso é um texto a parte. O revestimento da parede é um texto a parte. Etcetc. O negócio é todo descrito nos mínimos mí.ni.mos detalhes. É uma coisa meio insana. Isso é o texto que você manda para a construtora para eles calcularem o preço do serviço. Por isso que tem que estar tudo nos mínimos detalhes, porque se não cada coisinha que você não especificar – ainda que seja óbvio e que seja feito sempre assim e que não dê pra fazer de outra forma – a construtora vai aproveitar pra te cobrar extra depois porque eles tiveram que fazer “extra”, já que não estava no seu texto descritivo dos serviços.

Você está se perguntando: mas meu Deus, COMO é que eu vou saber todos esses detalhes???

Basicamente você sempre copia. Ou de outro projeto similar (mudando só as quantidades, claro), ou então tem sites onde você encontra textos modelos para cada tipo de coisa (precisa ter uma conta paga), e assim vai. Quando é alguma coisa mais diferente, que você mesmo projetou assim (por exemplo um banco, uma pérgola, sei lá, algo que você projetou daquela maneira específica), aí você tem que projetar tudo nos mínimos detalhes, mesmo. A descrição acaba sendo fácil quando você pensou tudo até cada parafuso.

Isso é uma coisa que assusta no início, mas você vai aprendendo aos poucos. Os alemães também não se formam sabendo fazer isso não. É uma coisa de aprender na prática.

Outra coisa interessante são as fases do projeto (Leistungsphasen, abreviado LPH). Aqui o projeto é bem precisamente separado em 9 fases, e o tempo todo se faz referência a essas fases. São elas:
1 – Grundlagenermittlung – Avaliação básica: é o levantamento, basicamente. Isso quem faz não é o arquiteto mas um escritório de levantamentos (Vermessungsbüro) que vai no local da obra e mede tudo nos mínimos detalhes.
2 – Vorplanung mit Kostenschätzung – Pré-projeto com estimativa de custo: São os primeiros desenhos do projeto, não muito detalhados, com uma estimativa de custo (seguindo um padrão específico, claro, por motivos de Alemanha).
3 – Entwurf mit Kostenberechnung – Projeto preliminar com cálculo de custos: o projeto um pouco mais detalhado, com um cálculo de custos um pouco mais detalhado.
4 – Genehmigungsplan – Projeto da prefeitura (o projeto para aprovação na prefeitura, ou nos órgãos de licenciamento que forem necessários).
5 – Ausführungsplan – Projeto executivo, com todo o detalhamento necessário.
6 – Vorbereitung der Vergabe – Preparação das orçamentos. Aqui é que vem o LV, que é o documento enviado para as diferentes empresas com quem se quer fazer um orçamento para a construção. Eles colocam o preço para cada item e te entregam então a oferta final.
7 – Mitwirkung der Vergabe – Comparação dos orçamentos. Tendo recebido orçamentos de diferentes empresas de construção, o arquiteto compara e escolhe a empresa que será contratada para a execução do projeto (normalmente a que ofereceu o serviço pelo preço mais baixo, claro).
8 – Objektüberwachung – Acompanhamento da obra
9 – Objektbetreung – Gestão da obra, ou tudo o que precisa ser feito depois que a obra fica pronta: checar as faturas das firmas que foram contratadas para a construção, verificar se tudo foi feito direitinho, contatar as firmas pra corrigirem eventuais erros ou coisinhas que ficaram faltando, etc…

Dessas 9 fases você ouve falar o tempo todo, todo mundo sabe qual é qual, em qual delas o projeto está, etc. E isso vale não só pra projetos de paisagismo, claro, mas para qualquer projeto de construção. Raramente um escritório de arquitetura faz só o projeto sem a obra, por exemplo. Normalmente o mesmo escritório faz a obra inteira em todas as suas 9 fases.

  1. Detalhamento e execução

Mas toda essa precisão e detalhamento tem seu lado postivo. As coisas aqui são Executadas! De Acordo! Com O Projeto! Direitinho! Bonito! Bem Feitinho!

Não quero ser aquela pessoa que fica “ui, porque olha que lindo aqui na Alemanha, imagina no Brasil…”, mas gente. Olha que lindo isso, sabe! Imagina no Brasil? As fotos acima são uns detalhes de um espaço livre de uma escola pública, sabe. Nem tudo é lindo na Alemanha, mas a execução perfeita dos projetos de arquitetura é sim!

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Outra coisa um tanto invejável é o mobiliário urbano usado por aqui. Os bancos são bonitos, bem acabamos, com materiais bons. Seria impensável colocar numa praça pública aqui aquele banco horroroso de concreto comum em pracinhas em cidades pequenas do Brasil.

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E antes que digam “ah, mas eles têm dinheiro pra gastar com isso”, é importante notar que esses detalhes bem feitos nem sempre é uma questão de dinheiro. É claro que um banco mais bonito custa mais caro que um bloco de concreto tosco no formato de banco. Mas aqui também se procura manter o preço da execução o mais baixo possível, especialmente quando se trata de um espaço público. Não é diferente. A diferença é o que é o “mínimo aceitável”. É muito mais uma questão de prioridades do que de preço. Não tô dizendo que no Brasil rolaria fazer os projetos tão bonitos e bem executados que aqui pelo mesmo preço que a gente paga normalmente pela reforma de um espaço público lá, mas que se a estética do espaço público não fosse vista como algo de pouca importância, não seria tão difícil para arquitetos executarem projetos melhores. Porque a estética do espaço público é extremamente importante, um espaço livre bem projetado e bem executado – mesmo que simples – faz muita diferença na qualidade de vida das pessoas que passam por ali diariamente.

  1. Plantas

Mas porque nem tudo são flores – literalmente – ainda resta um assunto para discutir quando se fala de arquitetura da paisagem: as plantas.

Talvez a parte mais frustrante de ser arquiteto paisagista aqui – em relação ao Brasil – são as plantas. As plantas, mesmo, árvores, arbustos, forrações, flores, etc.

Árvores até vai, tem bastante árvores bonitas, aqui, e uma diferença legal é que no outono elas ficam todas amarelas e laranjas e algumas vermelhas e isso é maravilhoso.

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Na primavera algumas árvores ficam todas floridas, como as cerejeiras, e isso também é bem bonito:

Mas não tem árvores que ficam totalmente amarelas ou roxas de flores como nossos ipês, ou totalmente vermelhas como nossas eritrinas entre várias outras. E o legal do Brasil é que as nossas árvores florescem o ano todo – quer dizer, em todas as épocas do ano sempre tem alguma espécie de árvore que está florescendo. Aqui é só na primavera que elas florescem, no verão está tudo verde, no outono fica tudo amarelo e marrom, e no inverno, tudo seco e sem folhas. Sinto falta dessas árvores:

Mas o que decepciona mesmo são os arbustos e forrações muito sem graça. O que mais me chateia é a ausência de plantas com folhas grandonas, bonitas e bem verdes. Aqui os arbustos tem meio cara de coisa seca, de mato, sei lá. Fiquei aqui procurando uma foto de algum exemplo e nem achei pq acho que nunca nem me deu vontade de fotografar. Até dá pra fazer umas coisas bonitas, mas nem se compara às nossas plantas tropicais:

Essas plantas tropicais com folhas gigantes e maravilhosas você só encontra aqui em vaso dentro de casa (e alemão adora ter planta em casa, aliás). Inclusive várias espécies que a gente tem em jardim aqui eles têm em vasos. Porque ao inverno lá fora só planta feia sobrevive.

Publicado originalmente em 23/12/2016 em: https://manhadealemanha.wordpress.com/2016/12/23/arquitetura-da-paisagem-na-alemanha/

Bosques nas cidades: a chapeuzinho e o lobo-mau?

No nosso mundo ideal, entre casas e prédios (baixos) de apartamentos, há lojinhas de bairro e também bosques, áreas livres e espaços para as brincadeiras infantis. As periferias das cidades brasileiras até tem esses elementos, mas estão longe do ideal. E não porque não correspondam a um padrão estético, mas porque, no cotidiano, há dificuldades práticas de uso e de gestão. Um bosque que vira terra-de-ninguém é um problema.

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BCBU na Rua Ana Maria Foggiato Roda, Sítio Cercado, Curitiba.

Em Curitiba, alguns bosques que existem em terrenos públicos em bairros mais pobres, ao invés de serem convertidos em parques (que são uma forma de garantir sua preservação), foram cercados e tiveram o uso público vetado. Em, como não são parques, foram denominados de outra forma: Bosque de Conservação da Biodiversidade Urbana (BCBU). Esta nova categoria, “que tem como objetivo a preservação de bancos genéticos”, contorna momentaneamente as dificuldades de gestão destes espaços.

Bosques em bairros mais pobres são frequentemente usados como depósito de lixo, de entulho e até de cadáveres. A população, que poderia até entendê-los como “a natureza perto de casa”, acaba por se incomodar e a temer atravessá-los, a temer as ruas ao redor. Cercado, o bosque ainda cumpre funções ambientais: melhora a qualidade do ar, retém água da chuva, pode proteger um curso d´água, conter árvores nativas, abrigar pássaros e pequenos animais. E requer muito menos vigilância e manutenção.

A municipalidade ainda tem como princípio tentar implantar uma calçada em volta da área, do lado de fora da cerca, para que as pessoas tenham como apreciar o bosque durante uma caminhada. Definitivamente está longe de ser ideal mas resolve por enquanto para o bosque, para os moradores do bairro, para o gestor. Quem sabe um dia as árvores, que não vão fugir, possam ser soltas e as pessoas possam conhecer por dentro o bosque que estão a preservar.

Texto: Francine Sakata.

Imagens: Google Earth.

Referências:

http://www.biocidade.curitiba.pr.gov.br/biocity/52.html

http://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/curitiba-recebe-novo-bosque-de-conservacao-e-mais-duas-reservas-de-patrimonio-natural/32976

http://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/mais-sete-areas-do-municipio-serao-transformadas-em-bosques-de-conservacao/34296