O ofício do arquiteto paisagista na Alemanha

Por: Laís Flores

Estou completando um ano no escritório onde trabalho como arquiteta paisagista, e achei que era uma boa hora de fazer um post sobre o assunto. Eu sou formada em arquitetura e urbanismo e trabalhei um pouco com paisagismo no Brasil. Como é minha área preferida da arquitetura, resolvi me focar nisso por aqui.

E após um ano de experiência na área na Alemanha, já dá pra fazer um post sobre as diferenças – que são muitas – dessa área aqui e no Brasil. Vou dividir o post em quatro partes pra organizar melhor. Alguns pontos valem não só para paisagismo, mas também para arquitetura.

  1. Incumbências e responsabilidades do arquiteto paisagista na Alemanha

A primeira grande diferença é que aqui arquitetura da paisagem – Landschaftsarchitektur – é uma área separada da arquitetura. O curso universitário de paisagismo é de 5 anos, como o de arquitetura, e só pessoas formadas nisso é que fazem projetos para espaços livres. Arquitetos nunca projetam espaços livres.

Uma outra diferença importante são os tipos de projetos mais comuns. No Brasil eu fiz muitos jardins, jardim de casas ou mesmo de sacadas. Eram projetos pequenos para pessoas que podiam pagar um arquiteto. Ou ainda jardins de edifícios comerciais. Fizemos também alguns projetos públicos, alguns parques e praças. Mas aqui os projetos de paisagismo são quase todos para espaços públicos. É que basicamente aqui para qualquer espaço livre se contrata um paisagista. Mesmo que seja uma área pequena, mesmo que nem dê para fazer muita coisa ali, sempre se contrata um arquiteto paisagista, porque é ele o responsável por projetar espaços livres e ninguém mais. E os tipos de projeto são bem variados: a gente faz muitas escolas (todas as escolas tem um projeto de paisagismo), áreas livres de edifícios de apartamentos (que são áreas semi-públicas, já que são sempre abertas) e praças. Um tipo de projeto interessante que é responsabilidade de paisagistas são áreas esportivas, quaisquer que sejam. No escritório eu já participei de projetos de campos de futebol, um percurso de BMX e um percurso de Biathlon (ski + tiro ao alvo). Projetos de jardins particulares são raríssimos. Isso certamente porque os alemães gostam de jardinagem e gostam de ter um jardim. Poucos pensariam em contratar um paisagista para fazer o jardim de casa porque preferem fazer isso eles mesmos.

E uma coisa particular do escritório em que eu trabalho é que a gente também faz vários projetos de planejamento da paisagem, que são projetos em escala maior. A maior parte dos escritórios de paisagismo trabalham só com projetos de lugares (Objektplanung) mas alguns fazem também planejamento da paisagem. São por exemplo a parte ambiental de projetos de zoneamento (Bebauungsplan, ou B-Plan), onde se decide coisas como a porcentagem de cobertura arbórea de uma rua ou de uma área verde em planejamento, localização de parquinhos, ou áreas esportivas, ou ainda bacias de retenção de águas pluvias, entre outras infraestruturas urbanas.

  1. Burocracias

Essa é a parte boa. A parte ruim desse trabalho aqui é que ele é muuuuuuuito mais burocrático que no Brasil. Isso eu já falei no post sobre Arquitetura na Alemanha (porque vale pra arquitetura e paisagismo), aqui pra cada coisa que você faz tem mil burocracias que vão junto: formulário x, lista y, texto não sei qual, etcetc. Tem uma coisa que aqui se faz para cada projeto chamava Leistungsverzeichnis, abreviado LV. É uma descrição nos mí-ni-mos-de-ta-lhes de tudo que vai no projeto. Tudo. Nos mínimos detalhes. Quando eu digo mínimos detalhes, vc tá pensando “ah, ok, detalhes, tal, tudo bem”. Mas é muito pior do que você está imaginando. Por exemplo, digamos uma parede. Só isso, uma parede. O texto do LV seria algo desse tipo:

“Parede de tijolos, DIN EN 1996, parede externa, 15m²

Largura da parede 24cm
Tijolos de arenito calcário, DIN EN 771-2 em conexão com DIN V 20000-402 ou DIN V 106, KS L-R, classe de resistência 12, Densidade 1,6,
Argamassa MG II a DIN V 18580 ou DIN V 20000-412 em conexão com DIN EN 998-2.”

(os códigos loucos são as normas que especificam detalhes do material da parede, resistência, coisas assim)

Daí se na parede tem por exemplo um vão para uma janela ou uma porta, isso é um texto a parte. O revestimento da parede é um texto a parte. Etcetc. O negócio é todo descrito nos mínimos mí.ni.mos detalhes. É uma coisa meio insana. Isso é o texto que você manda para a construtora para eles calcularem o preço do serviço. Por isso que tem que estar tudo nos mínimos detalhes, porque se não cada coisinha que você não especificar – ainda que seja óbvio e que seja feito sempre assim e que não dê pra fazer de outra forma – a construtora vai aproveitar pra te cobrar extra depois porque eles tiveram que fazer “extra”, já que não estava no seu texto descritivo dos serviços.

Você está se perguntando: mas meu Deus, COMO é que eu vou saber todos esses detalhes???

Basicamente você sempre copia. Ou de outro projeto similar (mudando só as quantidades, claro), ou então tem sites onde você encontra textos modelos para cada tipo de coisa (precisa ter uma conta paga), e assim vai. Quando é alguma coisa mais diferente, que você mesmo projetou assim (por exemplo um banco, uma pérgola, sei lá, algo que você projetou daquela maneira específica), aí você tem que projetar tudo nos mínimos detalhes, mesmo. A descrição acaba sendo fácil quando você pensou tudo até cada parafuso.

Isso é uma coisa que assusta no início, mas você vai aprendendo aos poucos. Os alemães também não se formam sabendo fazer isso não. É uma coisa de aprender na prática.

Outra coisa interessante são as fases do projeto (Leistungsphasen, abreviado LPH). Aqui o projeto é bem precisamente separado em 9 fases, e o tempo todo se faz referência a essas fases. São elas:
1 – Grundlagenermittlung – Avaliação básica: é o levantamento, basicamente. Isso quem faz não é o arquiteto mas um escritório de levantamentos (Vermessungsbüro) que vai no local da obra e mede tudo nos mínimos detalhes.
2 – Vorplanung mit Kostenschätzung – Pré-projeto com estimativa de custo: São os primeiros desenhos do projeto, não muito detalhados, com uma estimativa de custo (seguindo um padrão específico, claro, por motivos de Alemanha).
3 – Entwurf mit Kostenberechnung – Projeto preliminar com cálculo de custos: o projeto um pouco mais detalhado, com um cálculo de custos um pouco mais detalhado.
4 – Genehmigungsplan – Projeto da prefeitura (o projeto para aprovação na prefeitura, ou nos órgãos de licenciamento que forem necessários).
5 – Ausführungsplan – Projeto executivo, com todo o detalhamento necessário.
6 – Vorbereitung der Vergabe – Preparação das orçamentos. Aqui é que vem o LV, que é o documento enviado para as diferentes empresas com quem se quer fazer um orçamento para a construção. Eles colocam o preço para cada item e te entregam então a oferta final.
7 – Mitwirkung der Vergabe – Comparação dos orçamentos. Tendo recebido orçamentos de diferentes empresas de construção, o arquiteto compara e escolhe a empresa que será contratada para a execução do projeto (normalmente a que ofereceu o serviço pelo preço mais baixo, claro).
8 – Objektüberwachung – Acompanhamento da obra
9 – Objektbetreung – Gestão da obra, ou tudo o que precisa ser feito depois que a obra fica pronta: checar as faturas das firmas que foram contratadas para a construção, verificar se tudo foi feito direitinho, contatar as firmas pra corrigirem eventuais erros ou coisinhas que ficaram faltando, etc…

Dessas 9 fases você ouve falar o tempo todo, todo mundo sabe qual é qual, em qual delas o projeto está, etc. E isso vale não só pra projetos de paisagismo, claro, mas para qualquer projeto de construção. Raramente um escritório de arquitetura faz só o projeto sem a obra, por exemplo. Normalmente o mesmo escritório faz a obra inteira em todas as suas 9 fases.

  1. Detalhamento e execução

Mas toda essa precisão e detalhamento tem seu lado postivo. As coisas aqui são Executadas! De Acordo! Com O Projeto! Direitinho! Bonito! Bem Feitinho!

Não quero ser aquela pessoa que fica “ui, porque olha que lindo aqui na Alemanha, imagina no Brasil…”, mas gente. Olha que lindo isso, sabe! Imagina no Brasil? As fotos acima são uns detalhes de um espaço livre de uma escola pública, sabe. Nem tudo é lindo na Alemanha, mas a execução perfeita dos projetos de arquitetura é sim!

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Outra coisa um tanto invejável é o mobiliário urbano usado por aqui. Os bancos são bonitos, bem acabamos, com materiais bons. Seria impensável colocar numa praça pública aqui aquele banco horroroso de concreto comum em pracinhas em cidades pequenas do Brasil.

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E antes que digam “ah, mas eles têm dinheiro pra gastar com isso”, é importante notar que esses detalhes bem feitos nem sempre é uma questão de dinheiro. É claro que um banco mais bonito custa mais caro que um bloco de concreto tosco no formato de banco. Mas aqui também se procura manter o preço da execução o mais baixo possível, especialmente quando se trata de um espaço público. Não é diferente. A diferença é o que é o “mínimo aceitável”. É muito mais uma questão de prioridades do que de preço. Não tô dizendo que no Brasil rolaria fazer os projetos tão bonitos e bem executados que aqui pelo mesmo preço que a gente paga normalmente pela reforma de um espaço público lá, mas que se a estética do espaço público não fosse vista como algo de pouca importância, não seria tão difícil para arquitetos executarem projetos melhores. Porque a estética do espaço público é extremamente importante, um espaço livre bem projetado e bem executado – mesmo que simples – faz muita diferença na qualidade de vida das pessoas que passam por ali diariamente.

  1. Plantas

Mas porque nem tudo são flores – literalmente – ainda resta um assunto para discutir quando se fala de arquitetura da paisagem: as plantas.

Talvez a parte mais frustrante de ser arquiteto paisagista aqui – em relação ao Brasil – são as plantas. As plantas, mesmo, árvores, arbustos, forrações, flores, etc.

Árvores até vai, tem bastante árvores bonitas, aqui, e uma diferença legal é que no outono elas ficam todas amarelas e laranjas e algumas vermelhas e isso é maravilhoso.

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Na primavera algumas árvores ficam todas floridas, como as cerejeiras, e isso também é bem bonito:

Mas não tem árvores que ficam totalmente amarelas ou roxas de flores como nossos ipês, ou totalmente vermelhas como nossas eritrinas entre várias outras. E o legal do Brasil é que as nossas árvores florescem o ano todo – quer dizer, em todas as épocas do ano sempre tem alguma espécie de árvore que está florescendo. Aqui é só na primavera que elas florescem, no verão está tudo verde, no outono fica tudo amarelo e marrom, e no inverno, tudo seco e sem folhas. Sinto falta dessas árvores:

Mas o que decepciona mesmo são os arbustos e forrações muito sem graça. O que mais me chateia é a ausência de plantas com folhas grandonas, bonitas e bem verdes. Aqui os arbustos tem meio cara de coisa seca, de mato, sei lá. Fiquei aqui procurando uma foto de algum exemplo e nem achei pq acho que nunca nem me deu vontade de fotografar. Até dá pra fazer umas coisas bonitas, mas nem se compara às nossas plantas tropicais:

Essas plantas tropicais com folhas gigantes e maravilhosas você só encontra aqui em vaso dentro de casa (e alemão adora ter planta em casa, aliás). Inclusive várias espécies que a gente tem em jardim aqui eles têm em vasos. Porque ao inverno lá fora só planta feia sobrevive.

Publicado originalmente em 23/12/2016 em: https://manhadealemanha.wordpress.com/2016/12/23/arquitetura-da-paisagem-na-alemanha/

Pelos passeios de São Paulo…

Falar de calçadas é também tratar de um tema que se tornou um dos principais desafios das metrópoles contemporâneas: trata-se da mobilidade urbana.

Você sabia que em São Paulo mais de 30% da população se locomove a pé?

Traduzindo em números, cerca de 14 milhões de pessoas utilizam as calçadas de São Paulo para deslocar-se todos os dias: Os motivos são os mais variados e as distâncias também.

O fato é que a locomoção e o deslocamento acontecem sobre um tipo de espaço livre peculiar: as calçadas. Mas, o que é uma calçada? Quais são os elementos que a compõe?

O Decreto Municipal 45.904 de 2005 define os elementos que compõem uma calçada e descreve as 5 faixas que descreveremos as seguir:

– a primeira é a sarjeta, ou ainda, o local por onde escorrem as águas das chuvas, por exemplo, e que fica entre o leito carroçável e a guia. A guia é a elemento que separa a sarjeta da calçada.

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Fonte

 

– em seguida, vem a faixa de serviço que é aquele espaço de no mínimo 75 cm,  destinado à instalação de equipamentos e mobiliário urbano como vegetação, tampas de inspeção, grelhas de exaustão, de drenagem, lixeiras, postes de sinalização, iluminação pública e eletricidade, floreiras, caixas de correio, telefones públicos e mais dezenas de outras interferências colocadas por permissionárias e concessionárias públicas.

– Logo depois vem a faixa livre, ou seja, aquele lugar em que o pedestre anda livremente e que possui superfície regular, firme, contínua e antiderrapante com largura de, no mínimo, 1.20 m. Trata-se de espaço suficiente para duas pessoas andarem lado a lado. Este lugar tem inclinação transversal de até 2%, ou seja, quase imperceptível para quem está andando mas, que permite, que a água de chuva escorra para a sarjeta sem empoçar no meio do caminho. Quanto à inclinação, ela tem que se igual à da rua: nada daquilo de fazer degraus, escadinhas e várias outras soluções que a gente encontra todos os dias por aí e que nada mais são do que soluções criativas para facilitar a vida particular dos donos dos imóveis ou seja, facilitar a entrada do carro na garagem, servir de apoio para mesas de bares e restaurantes por exemplo.

– Depois temos a faixa de acesso que é a área destinada à acomodação das interferências que são resultantes da implantação, do uso e da ocupação das edificações existentes na via pública. Trata-se da colocação de jardins, floreiras, lixeiras e quaisquer outras necessidades do edifício que está em frente a ela. De qualquer forma, precisa de autorização da prefeitura e só é recomendável para calçadas com mais de 2 metros de largura.

 

– Por fim o decreto apresenta as esquinas incluindo a intervisibilidade. A esquina constitui o trecho do passeio formado pela área de confluência de 2 (duas) vias. 

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Fonte

No evento Calçada-Cilada realizado aqui no FIAM-FAAM Centro Universitário em 01 de abril de 2016, algumas sugestões para a melhoria da vida das pedestres foram apontadas.

O evento contou com a participação de alguns convidados que tratam do assunto. São eles o jornalista Marcos de Souza (MOBILIZE), a arquiteta Meli Malatesta (Cidade a pé e também da ANTP), Andrew Oliveira (Corrida Amiga), Luiz Eduardo Bretas (SPUrbanismo) e Ramiro Levy (Cidade Ativa).

Destaquei algumas mas, se você quiser conhecer as demais, acesse o vídeo do evento aqui:

  • Ampliação das calçadas, passeios e espaços de convivência;
  • Redução de quedas e acidentes relacionados à circulação de pedestres corrigindo e readequando calçadas existentes ou seja, projetando e implantando as cinco faixas ou quando não houver espaço, ao menos as três primeiras – guia e sarjeta, faixa de serviços e faixa livre de 1.20 para o deslocamento;
  • Por fim, a padronização e readequação dos passeios públicos em rotas com maior trânsito de pedestres;

Mas tem uma ação que considero fundamental: por meio de campanhas educativas promovidas pela prefeitura e também por meio das ações criadas pelo ativismo civil organizado, conscientizar os cidadãos da importância das calçadas como um dos elementos que compõem o espaço público das cidades lembrando sempre que a qualidade dos espaços destinados aos cidadãos caracteriza o nível de civilidade de um país. Se quiser saber mais, acesse a Agenda 2030 e Project for Public Spaces.

Vira praça, vira parque

Texto: Matheus Casimiro

Nos últimos três anos, na cidade de São Paulo, houve um aumento de solicitações para o enquadramento de praças públicas como parques públicos. Essas demandas foram requeridas pelas mais diversas origens, de entidades civis à Câmara Municipal. Houve casos de áreas verdes emblemáticas, como a Praça da Sé ou a Roosevelt, que não foram adiante, e casos que foram levados à cabo, como o novo Parque Tatuapé e a Praça do Pôr do Sol.

A primeira experiência tida como bem sucedida foi a praça do antigo Lions Clube Penha, com 19.128 m², que se tornou o “Parque Tatuapé” pelo Decreto de Nº 55.860, de 20 de janeiro de 2015. Essa área se localiza próxima ao parque Piqueri, na subprefeitura da Mooca, com topografia relativamente plana e esparsos exemplares arbóreos e arbustivos. Esse local estava praticamente abandonado com pouca apropriação pública.

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Parque Tatuapé. Fotos: SVMA/DEPAVE, Arthur Cabral (01/11/2013).

O segundo exemplo de praça convertida em parque é a praça Coronel Custódio Fernandes Pinheiro, mais conhecida como a Praça do Por do Sol, transformada legalmente em uma área verde especial denominada “Parque do Pôr do Sol” (Decreto de Nº 56.333, de 13 de agosto de 2015). Localizada no Alto de Pinheiros, sua metragem é de 28. 358 m², e tem como características principais o relevo acentuado, com grandes desníveis entre ruas que o confrontam; a interação entre seu espaço e a rua sem qualquer cercamento em seu perímetro; a ausência de bosques consolidados, apenas árvores isoladas, gramados e poucos maciços arbustivos. Ao contrário do “Parque Tatuapé”, sua apropriação coletiva é intensa com dias de lotação.
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Parque do Pôr do Sol. Fotos: Matheus Casimiro, 22/09/2014.

Ambos os casos apresentam conformação urbana semelhante, pois são áreas de pequena dimensão, sem presença de elementos naturais de relevância e com equipamentos já com uso público estabelecido. A questão que se coloca é: o que motivou a demanda de transformação dessas áreas em parques públicos?

As praças e os parques são diferentes categorias de áreas dentro do sistema de espaços livres da cidade. Apesar de serem áreas públicas que apresentam algumas semelhanças entre si, têm discrepantes conceituações, feições e destinações. Não são diferentes apenas por sua origem e história mas por oferecerem distintas formas de apropriação. O contraste entre elas vai além de características como dimensão e a presença ou não de cercamento. São morfologias urbanas com atributos distintos, para não dizer antagônicos. O entendimento dessas diferenças e semelhanças parece ser um dos primeiros estágios necessários para elucidar a questão.

As praças são espaços integrados à circulação do espaço em que se inserem. Inicialmente criadas para dar suporte a atividades culturais, de comércio, e a discursos políticos, hoje são áreas livres para diferentes usos de lazer e como extensão das ruas e calçadas. Podem ser áreas arborizadas ou secas, mas não necessariamente precisam compor uma função ambiental para o município, embora isto seja desejável. O parque, por sua vez, é a evolução do jardim na cidade contemporânea, sendo o artefato da natureza no ambiente citadino. Por esse motivo, tem predominância de recursos naturais, e propicia tanto o lazer ativo – como esportes e ciclovias – como atividades passivas – estares contemplativos e mirantes. Na contemporaneidade, parques são compostos a partir de uma função ecológica, tornado-se prioritária sua contribuição com a drenagem urbana (piso permeável), preservação da rede hídrica, manutenção do micro-clima e diminuição das ilhas de calor (presença de árvores e espécies arbustivas).

A definição de parque ou praça aponta para distintas formas de planejar, implantar e gerir cada área. A confusão conceitual pode atrapalhar seu provimento e manutenção, podendo gerar espaços públicos mais desfuncionais, desarticulados e degradados na cidade. Pela imprecisão e falta de clareza na definição de cada um desses espaços há demandas e solicitações de criação de parques e parques, por diferentes origens, sem critérios específicos que norteiem as motivações de criação de cada um deles.

É necessário ponderar essas diferenças para subsidiar melhores condições quanto a qualidade de uso público. A demanda para a transformação dessas áreas provavelmente teve origem na expectativa de melhorias relacionadas a sua gestão, pois, entre praças e parques municipais há formas de gestão distintas.

As praças de São Paulo são áreas livres municipais de uso comum sob responsabilidade, em geral, embora não todas o sejam, de gestão e manutenção das Subprefeituras. Ao contrário dos parques públicos urbanos, as praças não possuem horário de funcionamento e, portanto, não possuem nenhum tipo de fechamento, cercamento ou cerceamento ao acesso público. As praças de São Paulo se caracterizam como espaços com programa de usos, em geral, mais abertos que o dos parques municipais. São áreas voltadas ao encontro e à vivência pública em qualquer horário do dia ou da noite, de acesso irrestrito. Enquanto espaços livres e, portanto, não construídos, a grande maioria das praças não possui sistema de instalações hidráulicas, sanitários ou demais edificações.

Por outro lado, os parques municipais paulistanos estão sob responsabilidade da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente. Administrados por um Conselho Gestor com poder deliberativo, os parques possuem horários de funcionamento e regulamentos de uso definidos em função do programa de atividades previstas. Com exceção dos parques lineares (embora alguns também o sejam), os parques são cercados e possuem horários para abertura e para fechamento. Os parques municipais de São Paulo possuem contratos para segurança, em geral realizada por equipes terceirizadas, e são dotados de equipamentos como banheiros e bebedouros.

As diferenças quanto a manutenção e segurança desses espaços podem ser as principais motivadoras para a conversão de praças e parques. Os solicitantes entenderem que, com previsão legal de parques, estas áreas estariam municiadas de melhores condições de gestão. Muitos representantes das comunidades são da opinião que os parques municipais têm gestão mais eficiente que as praças por terem limitação de acesso, contratos de manejo e segurança exclusivos e a contratação um administrador com criação de um respectivo conselho gestor.

Com isso, faz-se necessário a retomada da discussão acerca da gestão das praças. Recentemente foi instaurada a Lei de Nº 16.212, de 10 de junho de 2015, que “Dispõe sobre a gestão participativa das praças do município de São Paulo“. Com ela, abre-se a possibilidade de haver uma inflexão sobre a mudança da política de criação e gestão dos espaços verdes, criando uma coerência quanto às características e aos usos condizentes com cada um dos espaços do Sistema de Áreas Verdes da cidade. Esse é um bom início para a discussão de uma carente reflexão acerca das praças públicas municipais.


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Referências bibliográficas:

CHADWICK, George F. The park and the town . Michigan, ,Architectural Press, 1966.

BARTALINI, Vladimir.  Parques Públicos Municipais de São Paulo – A ação da municipalidade no provimento de áreas verdes de recreação. Tese de doutorado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. São Paulo, 1999.

KLIASS, Rosa G. A. A evolução dos Parques Urbanos na Cidade de São Paulo. Dissertação de Mestrado. Orientador: Lucio Grinover. São Paulo: FAUUSP, 1989.

SALDANHA, Nelson. O Jardim e a Praça . São Paulo, Edusp, 1986.

SEGAWA, Hugo. Ao amor do Público: Jardins no Brasil. São Paulo, Studio Nobel / FAPESP, 1996.

SUN, Alex. Projeto da Praça: Convívio e Exclusão no Espaço Público. 2ª Edição, Editora Senac, São Paulo, 2011.

 

Jovens adultos consumindo cidade

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O espaço público tem sido utilizado de muitos novos jeitos que não aconteciam anos atrás. No Carnaval paulistano, blocos levaram milhares de “foliões” às ruas. “Coletivos” se organizam pelas redes sociais e ocupam praças com estruturas criativas. Aos domingos, parques e avenidas fechadas para os automóveis são lugar de corridas, rolés de bike e showzinhos de música. Há cadeiras nas calçadas por todos os bairros. Até postos de gasolina recebem boêmios sob suas marquises bem iluminadas.

Por que isso? Uma explicação é a correlação entre essas demandas urbanas e a pirâmide populacional. Nos anos 1980, nasceu muita gente no Brasil, como nunca antes (nem depois). Para atender essa faixa da pirâmide etária, nos anos 1990, foram necessários equipamentos públicos para as crianças e adolescentes, como escolas e quadras esportivas. Nos anos 2010, os nascidos em 1980 estão com 30 e poucos anos. Eles agora são jovens adultos, que compram apartamentos de um dormitório no centro da cidade e encontram os amigos nos bares e nas ciclovias.

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Essa correlação foi apontada por Kazuo Nakano, mestre pela FAUUSP e doutor em Demografia pela UNICAMP, durante o 1o. Ciclo de Debates Quapá-SEL realizado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP em 2015, organizado pelo Prof. João Meyer. Nakano mapeou o salto no número de crescimento dos domicílios unipessoais (em que mora apenas uma pessoa). Ele aponta diferenças de perfil nas pessoas que moram sozinhas no centro expandido e na periferia: no centro cresceu o número de homens jovens em apartamentos pequenos e, na periferia, predominam mulheres mais velhas que ficaram sós nas casas da família.

E, se estamos vendo a cidade tomada por adultos animados, já não encontramos mais, nas calçadas e ruas das periferias, a criançada gritando. De novo, a pirâmide explica.

Texto: Francine Sakata

Fotos: Parque Cândido Portinari (Francine Sakata, 2015) e Pit-dog em Goiânia (Diogo Sakai, 2015).

Recomendamos:

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2011/04/29/populacao-adulta-foi-a-que-mais-cresceu-na-ultima-decada.htm

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2011/04/29/sao-paulo-concentra-maiores-densidades-demograficas-do-pais-menores-estao-no-amazonas.htm

Qual será o futuro da Praça Victor Civita?

A linda praça em São Paulo que era também uma peça de propaganda da Editora Abril, teve sua gestão e manutenção entregues à Subprefeitura de Pinheiros no primeiro dia deste ano. É de se esperar que a agenda de peças teatrais, contação de histórias e pequenos shows seja reduzida (a zero). As visitas de escolas em que se abordava a questão do lixo também devem sofrer. E o que será dos sofisticados decks de madeira?

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Projeto das arquitetas Adriana Levisky e Anna Julia Dietzsch inaugurado em 2008, a Praça Victor Civita presenteou São Paulo com decks suspensos de madeira que, ao invés de terminarem retos, como seria o convencional, enrolam-se em curvas que se transformam em bancos, guarda-corpos e coberturas. Sob essas coberturas há estação de ginástica, palco e platéia. Tudo elevado do solo, que estava contaminado porque ali funcionou um incinerador de lixo.

O visitante nunca tem contato com o solo. No sopé das árvores existentes foram feitos canteiros com  tampas de grade. Os jardins novos e as hortas foram plantados sobre uma base de ardósia isolada do antigo chão. E o passeio é mesmo sobre o deck de madeira. O edifício existente virou uma espécie de museu discreto da Editora Abril e era mais uma atração para descanso, lazer e banheiros limpos.

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No link abaixo, Edison Veiga, do Estadão, anuncia o fim da parceria que viabilizou a praça, firmada em 2007 entre o Grupo Abril, que está ainda instalado no terreno ao lado, e a Prefeitura de São Paulo. O site da associação informa: “Embora todas as atividades oferecidas venham de forma graciosa, manter uma estrutura com tantas particularidades exige tratamento diferenciado, o que custa alguns milhares de reais por mês. Seria de se estranhar se a crise que o país enfrenta não nos atingisse. Perdermos empresas parceiras mantenedoras e outras não aderiram ao projeto.” O valor gasto na manutenção não foi informado com precisão.

O grande problema, a meu ver, é que a praça é de difícil acesso, o que era compensado pela gestão privada, que montava essa agenda de atividades e cuidava da estrutura física com um zelo que não é comum à gestão pública de espaços livres. Quando não recebia nenhuma atividade, o local era pouco frequentado. A praça também não é cercada por ruas, ela dá frente para uma única rua local (como um lote), com quase nenhuma passagem de pedestres. A passagem de pessoas ajuda a inibir violência e vandalismo. Sem o mesmo uso e sem os “padrinhos” que lhe faziam uma manutenção, o risco de degradação é iminente.

O projeto de praça que lá está implantado não é o mais adequado à estrutura de manutenção do poder público mas é um primor arquitetônico-paisagístico. A transferência de uma repartição pública para o edifício seria capaz garantir um maior uso público? Será que a sociedade terá interesse e recursos para mantê-lo? A chance de sobrevida parece residir numa nova adoção.

Texto: Francine Sakata. Fotos: Bruna Santana.

Referências:

http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/edison-veiga/abril-encerra-parceria-na-praca-victor-civita/

http://pracavictorcivita.org.br/2015/12/21/associacao-amigos-da-praca-victor-civita-encerra-um-ciclo/

http://www.archdaily.com.br/br/01-10294/praca-victor-civita-levisky-arquitetos-e-anna-julia-dietzsch

 

A via expressa que quer ser linha verde

O resultado da intervenção paisagística para a avenida que corta Curitiba – a BR 116 em Curitiba – é acima da média nacional. Ainda assim, está longe de ter tornado aquele espaço público agradável. Que tipo de qualificações as vias expressas no meio das cidades merecem?

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Imagens do site da prefeitura.

A BR116 corta Curitiba e atravessa uma série de bairros de renda média e média-baixa. De certa forma, ela se opõe ao setor mais rico, a norte e noroeste e, ao longo dos anos, recebeu várias propostas de requalificação, todas com o objetivo de transformar a rodovia em uma via urbana, integrando-a à cidade. Buscava-se também ampliar a integração física entre os dois lados da rodovia.

Projeto BR Vida - 1993

Projeto BR-Cidade - 1996Sistema de Transporte de Alta Capacidade (STAC) - 1999

Os Projetos BR-Vida (1993), BR-Cidade (1996) e Sistema de Transporte de Alta Capacidade (1999).

O projeto mais recente de requalificação da BR 116, e que foi implantado, envolveu uma operação urbana consorciada.  Operação Urbana Consorciada é um instrumento legal previsto no Estatuto das Cidades e no Plano Diretor de Curitiba de 2004 que prevê a venda, pela prefeitura, de um direito adicional de construir. Este direito é alienado em Certificados de Potencial Adicional de Construção, também chamados cepacs. Os recursos financeiros oriundos de sua venda o município pode dispor para “melhorias urbanísticas estruturais, sociais e a valorização ambiental”. É uma forma de capturar recursos privados para obras públicas.

As cepacs fizeram fama na Operação Urbana Faria Lima, em São Paulo, nos anos 1990. Esta operação urbana foi um grande sucesso para dinamizar o mercado imobiliário. Os bairros paulistanos da Vila Olímpia e do Itaim ganharam edifícios corporativos e residenciais moderníssimos sobre suas ruas estreitas e calçadas modestas.  Não é exagero dizer que são arranha-céus envidraçados sobre um arruamento de favela. No quesito desenho urbano, o que se tem hoje é péssimo.

Os recursos obtidos nesta negociação, a prefeitura investiu no prolongamento da avenida Faria Lima, em dois túneis no cruzamento desta com outras avenidas e, creio, na infraestrutura dessa região. Não havia espaços públicos qualificados para o lazer e para fruição senão os canteiros centrais da avenida e uma ciclovia que, na ocasião, não se conectava a nada. Em 2008, numa outra parceria com a iniciativa privada, foi implantado um parque público ali, o Parque do Povo, em terrenos envolvidos em um imbróglio jurídico que perdura em 2015.

A operação urbana com leilão de cepacs virou o sonho das municipalidades, que tem grande parte de suas verbas comprometidas com gastos fixos e limitada capacidade de investimento. E o modelo da Faria Lima foi adotado na Operação Urbana Água Espraiada, também em São Paulo, no Porto Maravilha, no Rio de Janeiro (que inicialmente previa apenas edifícios corporativos e depois incluiu os residenciais) e em outras, inclusive a operação consorciada de Curitiba, que recebeu o sugestivo nome Linha Verde.

Projeto Linha Verde – 2003

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Projeto para a Linha Verde

Em 2015, mesmo paisagisticamente tratada, a Linha Verde remete à Marginal Tietê ou ao início da Rodovia Raposo Tavares, em São Paulo, e a muitas outras semelhantes pelas cidades brasileiras, com seus grandes galpões que abrigam um comércio que gosta de espaço: concessionárias, lojas de móveis, de materiais de construção, grandes cadeias varejistas – Decathlon, Tok&Stok, C&C.

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A prefeitura informou que, dos 99 milhões de reais de cepacs leiloadas, arrecadou 34,4. A impressão que se tem é que o adicional construtivo não seja cobiçado ali porque há muitos lotes grandes e, mesmo sem o adicional, os empreendimentos se viabilizam e ainda há bastante potencial a construir em outros bairros da cidade. Os desenhos do Instituto de Planejamento de Curitiba mostram edifícios sugerem edifícios residenciais e comerciais. É um horizonte mais plausível que instituições financeiras e multinacionais.

Mas ela é acima da média nacional porque recebeu, no centro, a via exclusiva do transporte público. Para os pedestres, o ambiente não é acolhedor e as distâncias são longas mas a existência das linhas do BRT permitem que seja possível chegar até lá de forma digna e que haja campus universitários e conjuntos habitacionais ao longo da via. Os pedestres também existem na Marginal Tietê e na Raposo Tavares paulistana, mas finge-se que são aventureiros clandestinos.

Em meio aos canteiros da BR116, foi também implantada uma ciclovia. Há quem reclame que o traçado é sinuoso e que isto alonga um trajeto que o ciclista faz para se deslocar de um ponto a outro, não necessariamente por passeio. Mas a ciclovia está lá. Resta acompanhar como a cidade se desenvolve ao longo da infraestrutura colocada.

Texto: Francine Sakata

Referências:

http://www.curitiba.pr.gov.br/conteudo/cepac-operacao-urbana-consorciada-linha-verde/576

Apresentação da Prefeitura de Curitiba na Oficina Quapá-SEL, na UFPR, organizada pelo Prof. Alessandro Filla Rosanelli, em junho de 2015 (imagens não creditadas).

Cota ambiental da prefeitura de São Paulo

Três técnicos da prefeitura de SP, liderados pela geóloga Patricia Sede da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano – SMDU, estiveram na FAUUSP, a convite da prof. Paula Santoro, no dia 15/09/2015 para explicar a QA – cota ambiental, esta lei que eles muito heroicamente desenharam. Heroicamente porque deu para perceber que eles eram poucos, o trabalho imenso e as dificuldades maiores ainda. O projeto agora tramita na Câmara dos Vereadores para aprovação. Mas o instrumento que eles criaram para melhorar os padrões ambientais dos empreendimentos é mais inteligente do que o que as leis vigentes e espero que todos compreendam que se trata de um avanço.

Foi criado um método para cada empreendedor pontuar ambientalmente o seu empreendimento novo (ou reforma com aumento de área). Desta forma não é preciso que todos atendam indistintamente a uma lei genérica (como a que estabelece que 15% do lote deve ser permeável). Cada empreendimento faz uma combinação das soluções e monta o seu ‘cardápio’. Existe uma pontuação mínima a ser atendida e deverá valer para todos os lotes maiores que 500m². Pontuações acima do mínimo podem ser premiadas com descontos na outorga onerosa ou com acréscimo na área permitida.

Conceitos complexos foram o ponto de partida mas passaram por simplificações para viabilizar o modelo e a aplicação. Definiu-se, enfim, que a vegetação (que engloba qualidade ecossitêmica + microclima) e a drenagem são os recursos a garantir no momento. No caso da vegetação, era importante dar mais valor às árvores existentes porque, hoje, no município, tem sido mais conveniente aos empreendedores cortar tudo e compensar depois com o plantio de mudas. No caso da drenagem, reservatórios se complementam com jardins, pisos drenantes e outras possibilidades, inclusive jardins-de-chuva e drenos de infiltração (com a ressalva de que, neste caso, será preciso apresentar o laudo do hidrólogo porque a prefeitura não dispõe de um mapa de permeabilidade lote-a-lote para avaliar a eficiência dos sistemas de infiltração projetados).

O arquiteto não precisa fazer contas porque as fórmulas matemáticas foram montadas em um programa de computador, nos moldes da declaração de imposto de renda. O “simulador” calcula a partir das áreas ou unidades determinadas em projeto. Os técnicos da prefeitura acreditam que o projeto precisará ser estudado com mais cuidado e que o projetista ganhará importância.

Os detalhes e as limitações são muitos e foram explicados com paciência e honestidade. A conclusão é de que é um avanço mas que é preciso continuar a avaliar os parâmetros estabelecidos, fazer mais simulações e descobrir se as metas ambientais estão muito abaixo ou acima do que a sociedade e os empreendedores poderiam atingir neste momento.

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Texto: Francine Sakata, setembro de 2015

Imagem e mais informações:

http://gestaourbana.prefeitura.sp.gov.br/cota-ambiental-2/

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Parque Sabesp Móoca: o antigo e o novo

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O terreno do Parque Sabesp Móoca Radialista Fiori Gigliotti continha edifícios e árvores antigas. Uma caixa d´água é bonita em art-deco. (A do Parque Sabesp Butantã, é moderna, em concreto. Ambas receberam iluminação noturna azul). O novo projeto acrescentou elementos contemporâneos – em especial uma rampa e um pergolado metálicos, pintados de vermelho – e renovou todo o conjunto.

Feito pelo escritório Levisky Arquitetos Estratégia Urbana com a parceria de Fany Galender (paisagismo), o novo espaço, inaugurado em 13/09/2014, recebe caminhantes, famílias com crianças, pessoas a passeio. O gramado permite múltiplos usos inclusive treinos esportivos. De acordo com a Sabesp, foram investidos R$10,5 milhões. A área tem 37.867 m².

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Endereço: Avenida Paes de Barros, 2107, Alto da Mooca

Link para o mapa:

https://www.google.com.br/maps/place/23%C2%B034’06.9%22S+46%C2%B035’14.2%22W/@-23.5685829,-46.5872778,15z/data=!3m1!4b1!4m2!3m1!1s0x0:0x0

Texto e fotos: Francine Sakata

Referências:

http://www.galeriadaarquitetura.com.br/projeto/levisky-arquitetos-estrategia-urbana_/parque-sabesp-mooca/1686

Associação dos Amigos do Parque Sabesp Mooca no Facebook (www.facebook.com/parquesabespmooca)

http://www.areasverdesdascidades.com.br/2014/10/parque-sabesp-mooca-radialista-fiori.html

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Parque Sabesp Butantã: delícia de promoção

É um parque muito pequeno (10.000m²) em um terreno muito íngreme, mas o resultado é excelente. A Sabesp implantou em conjunto com outros dois em São Paulo, um na Móoca e outro em Cangaíba. As áreas já pertenciam à empresa e os parques funcionam como uma ação propaganda, espelhando uma preocupação com o público. Nesta ação, todas as partes saíram ganhando.

Na parte mais baixa, há uma entrada, com uma pracinha. Para vencer o desnível foi criada uma rampa que funciona também como circuito de caminhada e mirante. Há ainda a opção de subir por uma escada de degraus charmosos. Na parte mais alta, três decks metálicos vermelhos são os mirantes oficiais para a paisagem.

Três grandes reservatórios d´água, que armazenam 15 milhões de litros de água e atendem 18 bairros, são marcos do bairro. O mais alto deles está sendo iluminado à noite com uma luz azul-espacial. Os reservatórios mais baixos foram embalados com mensagens do gênero “cuide bem da água”. Esses pôsteres, do tamanho dos reservatórios, ficaram grande demais para um parque público, que seria, idealmente, um local de descanso desse tipo de peças.

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O projeto e a obra são mais sofisticados que o padrão usual dos parques da prefeitura ou mesmo do estado.  Trata-se de um parque público de um ente meio-público-meio-privado, que é o caso da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), uma empresa mista de capital aberto que tem o governo do Estado de São Paulo como principal acionista (50,3%). Segundo a empresa, as obras, que iniciaram em março de 2014, contaram com investimentos de R$ 6 milhões e geraram 260 empregos diretos e indiretos.

O projeto foi desenvolvido pelo escritório Levisky Arquitetos com a colaboração de Fany Galender (paisagismo). A população do entorno, de classe média predominantemente (bairros Vila Gomes, Jardim Bonfiglioli e Rio Pequeno) parece satisfeita. Eles podem desfrutar também de uma sala para atividades e um pequeno playground. Vamos torcer que estes parques tenham vida longa e que as empresas todas enxerguem as cidades onde atuam com uma visão mais generosa e ampla.

Endereço: Rua Coronel Ferreira Leal, 305.

Link para o mapa:

https://www.google.com.br/maps/place/R.+Cel.+Ferreira+Leal,+305+-+Vila+Gomes,+S%C3%A3o+Paulo+-+SP,+05589-090/@-23.5765353,-46.7372879,17z/data=!4m7!1m4!3m3!1s0x94ce56652743431f:0x3c627c014ae016d3!2sR.+Cel.+Ferreira+Leal,+305+-+Vila+Gomes,+S%C3%A3o+Paulo+-+SP,+05589-090!3b1!3m1!1s0x94ce56652743431f:0x3c627c014ae016d3

Texto e fotos: Francine Sakata, setembro de 2015

Referências:

http://site.sabesp.com.br/site/imprensa/noticias-detalhe.aspx?secaoId=65&id=6638

http://www.areasverdesdascidades.com.br/2015/08/parque-sabesp-butanta.html

http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/urbanismo/escritorio-levisky-arquitetos-assina-o-projeto-do-parque-sabesp-butanta-304511-1.aspx

Sobre as calçadas na Alemanha

Não é novidade que as calçadas em São Paulo e no Brasil em geral são desconfortáveis e cheias de problemas. Ser pedestre em São Paulo é um pequeno desafio. E isso se percebe com ainda mais clareza depois de se acostumar por um tempo com calçadas bem projetadas e executadas. A Alemanha tem bastantes dessas.

A primeira coisa que você talvez perceba passeando por uma cidade alemã é a grande quantidade de calçadões e áreas só para pedestres (e bicicletas), especialmente nos centros históricos. Aliás, uma pequena observação antes de continuar: toda área exclusiva para pedestre é livre para bicicletas também, então sempre que eu disser pedestres pense pessoas e ciclistas.

É super comum que tenha um calçadão principal, bem grande, bem comprido, que também é a rua comercial mais importante da cidade. Em Dresden, é a Prager Straße, essa daqui:

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Dá para ir quase só em áreas exclusivas para pedestres da estação central até o norte da cidade, a Neustadt. Você vai pela Prager Straße, segue pelas ruazinhas que levam à igreja principal, a Frauenkirche, continua por um calçadão-terraço ao longo do rio, cruza uma ponte que pode ser que em breve seja exclusiva para pedestres também, e continua pela Haupstraße, uma simpática rua comercial super arborizada.

Área só para pedestres no entorno da Frauenkirche

Hauptstraße em Dresden

Hauptstraße em Dresden

E Dresden não é exceção. Calçadões em ruas comerciais nos centros históricos de várias outras cidades podem ser vistos nas fotos abaixo:

Schildergasse em Colônia

Frankfurt

Mas não são só os calçadões que fazem das ruas alemãs especialmente confortáveis para pedestres (até porque calçadões no centro histórico também não são raros no Brasil). O desenho das calçadas é muito cuidadoso, e sua execução muito precisa.

As calçadas são frequentemente arborizadas por aqui. Uma maneira de fazer isso, quando a calçada não é suficientemente larga, é pegar o espaço de uma vaga de carro (a cada x metros) para plantar uma árvore. Como nos exemplos das fotos abaixo:

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No geral as ruas não são desenhadas tendo o carro como prioridade, mas sim o pedestre. Um outro exemplo disso são as esquinas. Quando é permitido estacionar na rua, com freqüência a esquina é alargada, tomando o espaço das vagas, para permitir maior visibilidade tanto para o pedestre quanto para o carro que vai fazer a conversão, e proporcionando ainda um espaço extra para o pedestre esperar antes de atravessar, sem ficar no caminho de quem está passando.

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Também não é raro que, em algumas ruas com pouco tráfego de automóveis, não haja desnível entre a rua e a calçada, de maneira que a rua é, de certa forma, uma extensão da calçada. É o carro que tem que dar a prioridade para os pedestres e ciclistas, claro.

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E quando eu falo da execução e do acabamento: são alguns detalhes aqui e ali na construção da rua e calçada que deixa tudo mais simpático e arrumado. Por exemplo, quando é possível estacionar em um dos lados da rua, freqüentemente a área para vagas tem um piso diferente, por exemplo um paralelepípedo, pra separar visualmente essa área do leito carroçável. Nos grandes calçadões, desenhos de piso com diferentes materiais criam essa organização e delimitação do espaço sem a necessidade de bloqueios físicos e visualmente indesejáveis. Quando o bloqueio físico é necessário – por exemplo para impedir que carros entrem em calçadões – ele é feito com elementos singelos e discretos, que não atrapalham o fluxo de pedestres, ou ainda com elementos que possam ter outros usos, como banco por exemplo.

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Desenhos de piso marcando diferentes espaços

Desenho de piso

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E às vezes são pequenos detalhes que mostram o cuidado com que esses espaços são pensados. Por exemplo nesse calçadão, como o material do piso muda em volta do mobiliário urbano, fazendo com que cada lata de lixo ou poste de luz se encaixe perfeitamente no espaço que ocupa. Mobiliário urbano é outra coisa a se elogiar também: bancos em calçadas e calçadões não são raros, e freqüentemente bem projetados. Até a maneira como a água pluvial é recolhida ao longo das ruas é feita cuidadosamente: grelhas discretas e bocas-de-lobo bem escondidas fazem o trabalho sem prejudicar visualmente o espaço.

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Drenagem de água pluvial

Drenagem de água pluvial

Mobiliário urbano em uma praça

Um detalhe a que raramente se dá atenção, mas que faz diferença na qualidade do acabamento do piso é o encontro do piso com o edifício. Alguns bons exemplos:

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Além disso, não é raro que as calçadas e calçadões se misturem com áreas privadas dentro de lotes de edifícios diversos. Às vezes o uso público desse espaço privado é desejado e encorajado – quando por exemplo uma passagem é criada ligando duas ruas por dentro de um lote privado – às vezes indesejado e desencorajado. A grande diferença é que a separação no último caso não é feita com portões e muros hostis que tiram a permeabilidade visual dos espaços públicos mas com pequenos elementos que já avisam ao passante que aquele espaço é menos aberto – embora não completamente fechado – que o espaço público. Vegetação, desnível ou uma entrada estreita são alguns desses elementos.

Passagem aberta por dentro de lotes privados conectando duas ruas. Com restaurantes e lojinhas.

Essa área é aberta mas é claramente marcada como privativa pela diferença de piso que desencoraja o transeunte a entrar.

E como já descrevi nos posts sobre bicicletas, as ruas alemãs são desenhadas para caber todo mundo – o pedestre, a bicicleta, a cadeira de rodas, o transporte público, a árvore e, quando sobra um espacinho, o carro também. Eu nunca tentei cruzar a cidade numa cadeira de rodas, mas suspeito que não seja muito difícil – não é totalmente incomum ver pessoas em cadeiras de roda sem acompanhantes por aí, e quem como eu anda quase sempre de bicicleta também logo percebe como são incomuns calçadas sem rebaixamento na esquina. Eu posso contar nos dedos as de Dresden, são tão raras que sei exatamente onde estão.

Área rebaixada para cadeira de rodas.

E, talvez a coisa mais importante para o conforto visual dos cidadãos e, inclusive, sua segurança: você nunca vai ver numa cidade alemã fiação aérea. Tipo nunca. Nunca vi. Só em área rural e mesmo assim bem de vez em quando. Toda a fiação é enterrada, e que diferença gigante isso faz para a cidade. Ainda que isso não significasse uma melhoria na segurança – mas significa – só pela questão estética já faz todo o sentido ter a fiação enterrada. Estética urbana não é uma questão pequena e insignificante, ela influencia demais a qualidade de vida das pessoas. Há estudos que mostram, por exemplo, que um espaço arborizado facilita a recuperação de pacientes em hospitais, melhora a socialização entre vizinhos em um bairro, e até é responsável pela diminuição da criminalidade local. A fiação aérea prejudica demais a estética da cidade e certamente também contribui para aumentar o stress e a insatisfação das pessoas que nela moram.

Algumas fotos para terminar:

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Texto e fotos: Laís Flores

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Laís Flores é arquiteta e urbanista e escreve sobre a experiência de viver na Alemanha no blog Manha de Alemanha. O texto sobre as calçadas foi publicado em 29/08/2015.

https://manhadealemanha.wordpress.com/

https://manhadealemanha.wordpress.com/2015/08/29/calcadas/